O mariola

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Os jornais estão cheios deste caso “FBD”, o mariola parolo que o novo presidente do PSD, depois de anos de preparação da sua ascensão ao cargo, levou para secretário-geral do partido.

Leio isso e deixo-me pensar numa coisa, que se calhar não tem muito a ver, mas boto-a. Tenho 53 anos. Olho para trás e lembro-me da gente má que cruzei. Recordo um punhado de gente da administração pública, um lumpen-PS, inculto e boçal, mas esse era um ambiente que me era incontornável pois institucional. Mas em termos de relações opcionais, brotadas de articulações profissionais, nas quais eu “dei o flanco” para que houvesse uma maior proximidade de actividades, só me lembro de 3 maus gajos: aos meus 20 e tal anos, um tipo que foi meu professor, um homem muito mais má-onda do que o que, ainda assim, o pintam; aos 30 e picos anos, um cooperante, um tipo mesmo do piorio, inenarrável; e já quase aos 40s com um colega meu, ingrato e caluniador, um tuga sacana no fundo, nada mais do que isso. O resto? Algumas pessoas excepcionais, lindas até; e uma mole de tipos como eu ou melhorzitos, borregadores ocasionais.

53 anos e só 3 mariolas encartados? Dirão que eu tenho tido muita sorte (talvez, concedo) ou que tenho tido uma vida muito curta (e eu aí sorrirei). Pois, de facto, um tipo com a vida aprende a conhecer esse tipo de gente. Pelo simples menear do bigode, que seja. Pela entoação da voz, pela forma como apresentam alguém a outrem, pelo aperto de mão (ou o “beijinho”), pela conversação suavemente ardilosa, pelo tempero venenoso na pequena maledicência, etc. E com isso um tipo aprende, também, a afastar-se, a não se comprometer, a não conjugar esforços.

Eu até acredito que Rui Rio seja um tipo decente. E muito o esperei, pois o país precisa de gente para combater esta indecência ontológica que é o PS (o partido de Capoulas Santos, Santos Silva, Vieira da Silva, António Costa, Leitão Marques, José Sócrates, etc.). Mas, raisparta, se um tipo como eu, um mero antropólogo adornado, aprende na vida a reconhecer e a afastar-se dos mariolas, um gajo que anda há décadas na política e há anos a preparar-se para ser presidente do maior partido português não o sabe fazer? E leva um gajo destes para secretário-geral? Caramba, das duas uma: ou é ele próprio um aldrabãozeco (e eu acho que não é). Ou então, e não há como negá-lo, é incapaz de avaliar homens. Um parvo, por assim dizer. E em assim sendo nunca servirá para chefiar políticos. Nem outros.

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Viktoria Plzen-Sporting

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(Postal para o És a Nossa Fé)

Apesar da transmissão ser em canal aberto, fui ver o jogo a casa do meu bom amigo Bill, um já hábito nos grandes jogos do Sporting. O jogo era cedo, às 18 horas, cheguei meia hora antes. “Que é que queres beber?“, “nada, nada, estou bem …”. “Um gin, um vodka?” insistiu ele (àquela hora ainda é cedo para o uísque), “não, não quero nada, obrigado“. “Então?, que se passa?!“, “nada, estou bem, bebo um copo de água“. “Olha, vou beber uma jola” disse-me ele, a baixar a parada. “Não obrigado, estou bem. Estou a guiar, pá, vim de carro, não vou começar a beber já, é melhor estar quieto“.

Começa a partida, nela a hipótese da passagem aos quartos-de-final, o ânimo para o final da época, o reforço para a conquista da Taça, quem sabe se ainda para o tão possível segundo lugar no campeonato (a ida à Champions, claro). E, até, a quase-miragem da conquista desta Liga Europa. Eu ali, Água do Luso (a melhor do mundo, insisto) e uns deliciosos pinhões e também amendoas. O dono da casa numa(s) cervejinha(s).

Intervalo. “Então, não bebes nada?” levanta-se ele. “Hé pá, faz-me um café (que estou para aqui a dormir)”.

Raios partam isto.

Hawking

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O blaseísmo é a pior infecção nacional. E não há antibiótico que lhe chegue.

Filho de engenheiro fui ofertado de livros infanto-juvenis de sensibilização para as “ciências naturais” e para as tecnologias. E tive a casa sempre cheia de livros de divulgação científica e de história das ciências, edições francesas as mais antigas, traduções nacionais depois (em particular após a explosão da Gradiva). Entre muitos outros li, em pós-puto, cada um à sua maneira, Reeves, Sagan, Jastrow. Estuporado por um sistema de ensino medíocre (e corporativo, já agora) fui arrancado à matemática e adjacentes com 14 anos (e os especialistas passeiam-se por aí, sem serem lapidados na rua). Quando chegou a “Breve História do Tempo” de Hawking li e, como tantos dos (bocados dos) outros livros do “género”, não percebi. Muito por impaciência, desinteligente, presumo. E muito por me faltarem os instrumentos. Ficou-me a imagem do autor (que homem!) e a memória do impacto do livro. E, muito mais do que isso, ficou-me a ideia (já a tinha, e continuei a comprová-la depois) de que há coisas que têm que me ser explicadas, que não chego lá nem sozinho nem pela leitura. Como qualquer de nós, vulgaríssimo de Lineu, respeitando (idólatra ateu) os que algo mais têm.

Hawking morreu agora. Leio que se dedicava a alguns tópicos surpreendentes: à análise de como levar a selecção inglesa de futebol ao título mundial (uma impossibilidade cosmológica) e de como marcar penaltis com sucesso (uma deriva jocosa? ou uma costela de alquimista a la Newton?). E, ainda mais surpreendente para mim, que reflectia ele sobre o pré-Big Bang: pois eu julgava que a reflexão actual se detinha no intervalo 1 elevado a -37 ao 1 elevado a -42 de segundo após o estouro-mor (se calhar estou errado nos números, mas ideia geral é esta), que o antes disso se remetia para uma metafísica. Ou seja, não só não percebi o velho livro como não sei o até onde a astrofísica ou cosmologia andam a fazer. Tenho assim, cinquentão, uma boçal noção sobre a ciência actual e a imagem do universo que constitui. Isso não me impediu de sentir a morte do enorme intelectual (ok, ok, deve-se dizer “cientista”) e do tão peculiar homem: um ícone.

Ao que leio, em tanta gente botando nas redes sociais, “parece mal” referir o assunto, porque lamentar/assinalar a morte de Hawking é como se reclamar a compreensão do seu trabalho e implicações. Exprimir um “luto” neste caso é um “armar aos cucos”, como antes se dizia. É engraçado, pois quando morre uma actriz, daquelas celebrizadas pelo voluptuoso com que se apresentavam em jovens, muitos (e até muitas) daqueles que vão incapazes de colaborar num orgasmo feminino surgem a lamentar o facto. Se vai um actor “sério” gente incapaz de falar em público condói-se. Se se morre um grande maestro ou uma qualquer Lady Gaga, nós-gente incapaz de ler uma pauta ou de soltar um trinado, assinalamos a perda . Etc. E em nenhum destes casos há a acusação de nos estarmos “a armar”. Podemos respeitar, idolatrar até, sem que nos seja exigido perceber o conteúdo e as implicações do trabalho alheio, o “como”, “para quê” e, acima de tudo, “até onde” desses trabalhos alheios.

Mas agora, porque é “ciência”, coisa “profunda” e até mais “digna”, saem à rua os “blaseístas” a gozarem com a admiração que nós-vulgares temos. Não tanto porque eles “percebem”. Mas acima de tudo porque assim querem dizer que têm o estatuto firmado, reconhecido, “não se armam aos cucos”, pois disso não precisam. Entenda-se bem, o “cagão”, o “armado aos cucos” é o blasé. A ignorância, estatutariamente interesseira e, afinal, nada entediada, é este blaseísmo. Tão, mas tão, lisboeta. E não há antibiótico que lhe chegue. Como titulava o escritor, “não se pode exterminá-los”.

O secretário-geral do PSD

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A casa nem é pequena, e sobram-me as divisões pois eu aqui sozinho num a caminho de solitário. Ainda assim rearrumo-a, reordenando-a em modo (até desesperado) de me reordenar. Implica isso deixar sair mobílias dos meus predecessores, progenitores, meus e deles, assim qual ecdise, e tantas loiças, estas em notório e definitivo desuso, por ausência de quem delas se saiba servir. E todo este bric-a-brac, para além da imensa tralha que as décadas fizeram acumular, tanta dela morta por desaparecidos os detentores dos segredos que lhe dava um qualquer sentido, mínimo que fosse. E, mais do que tudo, metros e metros cúbicos de papel. Há décadas Eco gozou com a ilusão, doentia, de acumular fotocópias como se isso equivalesse a adquirir o conhecimento que continham. E sofri eu dessa miragem, mania mesmo. Partidos já foram caixotes de lixo delas carregados, e de dezenas de malvados dossiers, de armações enferrujadas e capas amarrotadas. Nisso nada tendo perdido pois, ainda que descreia que voltarei a leccionar, desadequado que fiquei, tudo o que larguei fi-lo após o ter gravado na internet, naquilo do “download pdf”, um talvez patético, ou nem mesmo talvez, “nunca se sabe…”. E há os livros. Aos meus, do Abeles ao Zumthor, neste 18 ainda os pouparei, ainda que tantos deles também ali à merce do “clic” “download”. Mas hesito nas estantes de literatura pois, ainda que Borges tenha avisado que após os 50 um tipo só deve reler, há por aqui tanta coisa que larguei sem mesmo terminar, tanto livro “imprescindível”, tanta “revelação”, afinal só meus erros de “casting”, aliás erros de “bookcasing”, que talvez esteja no momento de os fazer partir. E há os livros velhos, os dos antepassados, tantos deles apartados dos meus interesses e desta época, que fazer das estantes dos ensaios, mais ou menos apocalípticos ou regeneradores, da editorial Estampa e similares, pré e pós-25 de Abril, tiragens vultuosas a cujos remanescentes a minha geração não sabe o que fazer? Ou às divulgações científicas de quando se encetava a “cibernética”? E os mais antigos, que destino dar aos missais de XIX, às esfareladas edições também oitocentistas das obras (completas?) de Camilo, Garrett, Herculano, Dinis, e outros tão mais obscuros,  já para não falar das estantes preenchidas de “preciosidades”, disseram-nas em tempos idos, como as obras completas do cardeal Saraiva ou o Portugal Antigo e Moderno de Pinho Leal, e tanta outras coisas da “construção da nação” daquele então, nada disto encadernado, com letras doiradas de preferência, pois livros que foram de uso, lidos e consultados, assim nada interessantes para aqueles, já poucos, que ainda julgam produzir estatuto na posse de livros velhos adornados de antigos? Mais fácil, porventura preconceito meu, é o enfrentar as estantes e gavetas de revistas, colecções desirmanadas. Pois preservarei até à morte a minha completa do “Tintin” e o legado recebido das (incompletíssimas) “Papagaio” e “Mosquito”. Mas as restantes, literárias com vultos que não vieram a ser, económicas cheias de ciclos concluídos, de relações internacionais desacontecidas, de artes obscuras ou viagens afinal nada aventureiras, a tudo isso digo adeus. Com pena, mágoa até, não pelo papel que assim parte mas pela ausência de quem as comprou. Leu e guardou. Por isso, só por isso, antes de as empilhar folheio-as. Por vezes procurando adivinhar o que terá realmente interessado. Outras atentando nos sublinhados e, até, nas de tempos mais-recentes, nos post-it afixados.

Hoje deparo-me com alguns exemplares desta Mealibra, a qual desconhecia, revista do centro cultural do Alto Minho, publicada quando vivia eu em Moçambique. Num dos números, de 2008, um painel vasto e apetitoso de colaboradores, logo à partida Llansol (trechos inéditos) e João Barrento, e por aí adiante. Lá mais para a frente apanho uma crónica de Onésimo (Teotónio Almeida) e vou logo ler, que dele abundam pérolas, e procuro nada perder. Começa logo assim “Não “armar” deve ser a regra número um de qualquer texto na primeira pessoa. A segunda deve ser algo como “se armares, que seja em bombo da festa.”. Rio-me, do certeiro que o “ó Nézimo” sempre vem, naquela sua ironia bem-disposta. Iluminadora, para não dizer iluminista. E, sabe-se lá porquê, lembro-me do novo secretário-geral do PSD (ainda o é?).

Depois arrumo as revistas. Não é desta que as deitarei fora. Pois, afinal, ainda tão actuais.

A propósito dos Oscars

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O velho Plummer (que ficou na história como o anti-nazi Von Trapp, imagine-se) aprestou-se a refazer o papel do Spacey, apagado do filme “Todo o Dinheiro do Mundo” pois este queimado na praça pública por, de facto, não se ter assumido no momento considerado devido como membro do movimento político “gay”. E, toma lá, logo, assim como quem não quer a coisa, levou com a nomeação para o Oscar. E ninguém diz nada a esta sequela do blockbuster “The world according to Stalin”.

A McDormand, excelente nos “3 Cartazes”, como sempre é, recebe o Oscar e manda a raparigada toda levantar-se, que este ano a causa é a feminina (feminista, se se quiser). Tal como antes foi a “afro-americana” (muito fiéis são aqueles tipos à lei da “one-drop”, já agora). A raparigada lá se levantou, aplaudiu, até ululou (as que o sabem fazer). E o mundo vê e acha óptimo, tão “liberals” (não é neoliberal, atenção) são os de Hollywood. E copiam-nos.

Que nojo. Os que copiam. Que os outros são o que são.

O governo está a dormir

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O governo está a dormir. Googlei e vi que tem um tipo chamado João Paulo Rebelo (secretário de estado da juventude e do desporto) que depende do ministro da educação (googlei e vi que se chama Tiago Brandão Rodrigues). Ambos dormem, e ressonam.

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O turismo na Ilha de Moçambique

Terraço das Quitandas, Ilha de Moçambique, November 2017 from Finnegan Flint on Vimeo.

Um pequeno filme turístico sobre a Ilha de Moçambique – sempre bela. E centrado sobre o “Terraço das Quitandas Guest House“, o mais belo sítio para ali nos hospedarmos. Uma casa que eu vi crescer (ser reabilitada), aboletando-me. E que é uma delícia, mesmo. Venturosos os que lá chegam.

Quando o “Terraço das Quitandas” ficou pronto voltei algumas vezes, já como cliente (como se impunha). A primeira vez fomos em família, a nossa filha tinha 7 anos, e bastante habituada a ir a hotéis ou similares. Ficámos uns dias, muito bem acolhidos. Na despedida eu disse ao gerente “bem, vamos lá fazer a conta”. E ela, surpreendidíssima, “ó pai, afinal paga-se, isto é um hotel?”. Pois sentira-se tão bem recebida, tão aconchegada em tão belo e acolhedor sítio, que nem se imaginava num qualquer hotel. É isso, como na Bíblia se diz, “da boca das criancinhas sai o perfeito louvor”.

O turismo da escravocracia

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Vejo e vou ler, com interesse. Um pequeno artigo, simpática divulgação sobre um roteiro turístico dedicado à memória da Lisboa escravocrata. Trata-se de um passeio pedestre de 5 horas em Lisboa, apetecível, até porque conduzido por um estrangeiro, assim muito provavelmente menos atreito a ecoar os nossos lugares-comuns, a fazer-nos turistas da nossa própria história, assim a desconhecer-nos. Deve ser interessante, de preferência quando parar de chover.

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Passos Coelho na Universidade

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Vejo no facebook uma mole de protestos face ao anúncio de que Passos Coelho passará a ser professor no ISCSP e, posteriormente, em outras duas universidades. Todos têm implícito que o problema é ser este indivíduo (PPC) o convidado, e muitos o explicitam. É relevante notar que se a adequação do perfil político-partidário ao exercício da docência universitária foi estruturante no Estado Novo, os “democratas” d’agora convocam-na agora como critério.

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Jorge Jesus para o futuro?

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(Postal para o És a Nossa Fé)

Há exactamente um ano o Pedro Correia colocou aqui um rescaldo muito positivo sobre a actual presidência, com o qual concordo e que considero ainda actual. O clube está muito melhor, tal como melhor está o futebol sénior, a sua actividade central. Para isso concorreu, também, uma acertada política de contratação de treinadores. Jardim é uma unanimidade, até nacional, e só se pode lamentar que tenha decidido, muito legitimamente, seguir a sua carreira no estrangeiro. Silva é um bom treinador, ainda que não tenha encontrado o registo adequado à concertação com o clube. E Jesus é um bom treinador, por mais críticas que surjam, como é natural face aos treinadores dos grandes clubes, principalmente quando não são campeões (e mesmo quando o são). E sendo notório que os adversários de Bruno de Carvalho (uma minoria muito activa, o que é saudável para o clube, pois “o que é preciso é que se fale, mesmo que seja … bem”) insistem em dizê-lo totalmente inadequado, forma de atacarem a presidência, a qual, e com denodo e competência, sempre se colocou totalmente ao lado do treinador. Há quem isso critique, dizendo que Bruno de Carvalho assim se deixou aprisionar pela figura do treinador. Não. Essa foi a melhor forma, assim óptima, de o apoiar e de em seu torno congregar o afã sportinguista.

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