doce

A meio da tarde sou surpreendido pela fome. Resolvo-me diante da TV, frugal e rápido. Como tal em modo zapping, hoje em desuso dada a possibilidade de gravação. Na RTP Memória passa o Festival da Canção 1982, apanho a votação final que veio a celebrizar as Doce. Delicioso: o amadorismo daquilo tudo, a votação feita por distritos qual eleições legislativas, os telefonemas dos júris “está? o júri reunido no salão nobre da bela cidade de …”, os enganos no quadro eléctrico da votação, as inacreditáveis vestes da apresentadora e dos concorrentes, os penteados (o mundo da laca, das permanentes, dos cabelos dragónicos), o ar enfastiadíssimo da assistência, a cerimónia de entrega dos prémios, que seria patética se não fosse pateta, a roupa do Tó-Zé Brito.

Tudo tão mau, mas tão mau mesmo, muito para além do kitsch, que até me enche de carinho. Tanto que me sirvo de um uísque e gravo o programa, puxo-o do princípio e vejo o festival, grande parte em velocidade rápida. Vejo a “Bem Bom”, fraquinha, fraquinha, mas que tem a patine do divertido que foi (libertador até, apesar dos mais novos não poderem perceber o quanto). E o resto das canções (Cândida Branca-Flor, Carlos Alberto Moniz, Alexandra, Dina, outros de que nunca ouvira falar ou esquecera, mais os então sempre presentes Tó-Zé Brito, Mike Sargent, etc.), ouvidas a 15-30 segundos cada, pura e simplesmente pungentes. Uma coisa perfeitamente atroz, e, para pior de tudo, aquilo apresentado por Camilo de Oliveira e Ivone Silva, numa escabrosa rábula em que faziam de casal popular bêbedo. Um verdadeiro documento de história cultural do país. E que bem podia servir para os admiradores, agora tão entusiastas, deste modelo de tralha tomarem algum tino, uma unha de bom-gosto. Pois a tralha, na moda actual claro, deve ser a mesma. Daqui a alguns anos constatarão isso.

Mas o verdadeiramente interessante deste documento é o que se retira desta canção: pois (por pirosa e medíocre que seja) esta “É o fim do mundo” foi a única que resistiu ao tempo, que é audível. Pois era o único verdadeiro cantor que lá estava, a única pujança de voz e sabedoria da sua colocação, o único “verdadeiro artista”. E era, injustiça portuguesa tão típica, aquele de quem os bem-pensantes (os d’agora dos piçarras e sobrais, e seus progenitores) tanto gozavam.

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