salazar

(Fotografia de Vasco Ribeiro)

Um texto de Miguel Alexandre Ganhão no Correio da Manhã sobre a estátua de Salazar, actualmente (res)guardada na Biblioteca Nacional, em Maputo. Sofre, o texto, daquela reaccionarite aguda que é aprofundado sintoma da demência senil. Não a do autor, entenda-se, mas sim a da mundividência que propaga. Mas, ainda assim, nessa sua vetustez titubeante dá azo a algumas questões:

1. A “turistização” da visão sobre o universo em causa. Pois ao afirmar que os milhares de portugueses ali residentes “perfilhem eles seja que ideologia for” “sentem-se incomodados com a situação” está a falar de algo misterioso. Dou o meu exemplo: sendo eu um liberal lite com laivos de social-democracia (ou seja, no actual linguajar dos funcionários públicos intelectuais um “neoliberal, reaccionário, lusotropicalista”, aka proto-fascista), em 18 anos de residência nunca esta situação me incomodou e até surpreendeu risonhamente. Um ricto partilhado com a esmagadora maioria dos portugueses que têm conhecimento do facto (a enormíssima maioria nunca entrou na BN; a maioria não sabe disto). Todos ficam surpreendidos com a preservação da estátua, num imediato “Afinal?…” muito local.

2. Uma questão política: lamenta-se o escriba que o governo português nada faz para obstar a esta situação “degradante“. Primeiro, e lateralmente, não é ao governo mas sim ao Estado que se deve cobrar este tipo de intervenções, mas enfim, os treinados neste regime de partido-Estado confundem as coisas. Mas o relevante, politica e culturalmente, é isto: a estátua é propriedade do Estado moçambicano. Cumpre a este dela fazer o que muito bem entende. Por mais que custa à(s) cabeça(s) dura(s) isto não se trata de criticar o governo por não actuar diante de uma qualquer prática de uma biblioteca municipal cá do rincão.

3. Outra questão, que é política: lamenta-se o colunista que assim se desrespeita a (nossa) “simbologia nacional“. Vamos lá ver se nós integramos, nesta era, Salazar como vulto da nossa simbologia? Aceitamos? Eu sou vizinho da praça cidade de Salazar (a preservada toponímia tardo-colonial do bairro Estado Novo dos Olivais, em Lisboa). Mas ruas, estátuas e bustos Salazar no país foram desaparecidas no pós-25 de Abril. Diferente foi em Moçambique. Em Maputo havia duas ruas Salazar. A da Baixa (hoje da mesquita-velha, se não estou em erro). A inicial comissão de mudança toponímica (da qual conheço dois membros) propôs a sua mudança, o que foi recusado pelo presidente Machel num “isso de fazer esquecer a história é coisa dos portugueses, não nossa“, terá dito em reunião. Só em 1991 é que a rua mudou de nome (se estiver errado alguém me pode corrigir, pois escrevo de memória e crente nas inúmeras narrativas sobre o facto). A outra rua Salazar, de facto uma pequena viela, era paralela à Av. Vladimir Lenine (suprema ironia), perto do antigo Prédio Isolado, e a essa ainda conheci, pois só desapareceu devido à construção de imóveis, apenas na década passada. Agruras com a “simbologia nacional“?

4. Em Maputo (no resto do país é diferente) o Estado moçambicano cuidou do património “oficial” colonial. A estatutária e a pintura oficial foram concentrados e cuidados, para isso também contando com a colaboração do Estado português. A Fortaleza de Maputo acolhe o cerne desse património, entre outros itens as estátuas de Mouzinho e de António Enes – aqui entre nós, eu, se fosse moçambicano, não faria grande diferença entre acolher a estátua de Salazar e a de Enes, que estavam bem um para o outro na visão que tinham daquilo tudo, e tiro disso Mouzinho, que sempre tem a panache militar e ainda por cima se suicidou. O Museu Nacional de Arte tem uma colecção de pintura oficial (reis, presidentes, governadores, obras de Columbano, Malhoa, entre outros), bem preservada, até alvo de exposições episódicas, e restaurada com o apoio técnico de instituições portuguesas (em ambos os casos a Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses; para a acção do no Museu Nacional de Arte com o contributo de técnicos do Instituto José Figueiredo).

Ou seja, o problema é o que fazer de “Salazar”. Não foi explodido, não foi afogado. É um incómodo. Que estará, ali nas traseiras a receber a “patine” do tempo, a maturar a sua inscrição na memória social. Bem diferente do que em Portugal. Onde pontapeámos a imagem do fascista (ai, desculpem, não era “fascista”, já cá não está quem falou …).

5. Vai o postal longo, mais longo do que o parvo (e reaccionaríssimo) artigo do Correio da Manhã (o jornal mais lido por cá). Mas dá ainda para lembrar duas outras coisas: há em Moçambique mais exemplares desse património “oficial” colonial. Na Beira há um armazém cheio de estátuas. A falta de recursos económicos e, acima de tudo, de recursos humanos sensibilizados para este efeito, não promoveu aquilo que aconteceu em Maputo. Ou seja, não houve uma camada intelectual local, inscrita no Estado, que tenha dinamizado uma leitura da história e a sua preservação patrimonial. Chegará o dia. E depois há as boas intenções, apatetadas como sempre.

Em Inhambane há uma estátua de Vasco da Gama também guardada no parque de estacionamento traseiro de um edifício camarário (tenho umas fotografias minhas com ela ombreando). Há um museu da cidade, com acervo muito heterogéneo, e ela poderia lá ser colocada. Ou num local mais público e histórico. Mas ainda … Falta decisão política. Há vinte anos, quando falei do assunto, até havia boa vontade local. Mas feneceu, logo, quando ouviram estes meus patrícios ufanos das “simbologias nacionais“, aqueles dos “lusófonos”, que a queriam espetar na praça central da cidade “terra da boa gente” – exactamente onde está agora a estátua de Samora Machel. Claro.

6. Para quem ainda se queixa destas coisas deixo um sinal da plasticidade local face a este património. Na Ilha há uma enorme estátua de Vasco da Gama. Havia sido apeada, faltava-lhe um pé, se não estou em erro. As entidades estatais portuguesas ofereceram os seus préstimos para a reparação. O assunto era simbolicamente sensível (ou seja, tinha importância política). Vai daí e um dia a rapaziada da cooperação militar portuguesa (se de Nampula se de Nacala já não recordo) meteu mãos à obra (e à bolsa) e mandaram reparar a peça e recolocá-la no pedestal. Assim, de modo oficioso. Tal e qual como se o British Council decidisse, sozinho, colocar o Beresford em Trancoso ou o Drake em Sagres. Reacção local? Plácida. Acolhedora. Se a história é correcta, e sempre assim me foi contada, é muito denotativa sobre o que os “lusófonos” da sacra “simbologia nacional” impensam. Eu teria desmobilizado aquela tropa toda. Mas a putativa bronca político-diplomática inexistiu.

7. O texto é longo? Sim, pois deu-me para recordar as inúmeras gargalhadas dos meus patrícios “perfilhem eles seja que ideologia for” quando alguém lhes contava da existência de uma estátua de Salazar em plena Biblioteca Nacional. Incómodo? Só na cabecinha do fascistazinho.

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