O Festival da Canção

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A meio da tarde sou surpreendido pela fome. Resolvo-me diante da TV, frugal e rápido. Como tal em modo zapping, hoje em desuso dada a possibilidade de gravação. Na RTP Memória passa o Festival da Canção 1982, apanho a votação final que veio a celebrizar as Doce. Delicioso: o amadorismo daquilo tudo, a votação feita por distritos qual eleições legislativas, os telefonemas dos júris “está? o júri reunido no salão nobre da bela cidade de …”, os enganos no quadro eléctrico da votação, as inacreditáveis vestes da apresentadora e dos concorrentes, os penteados (o mundo da laca, das permanentes, dos cabelos dragónicos), o ar enfastiadíssimo da assistência, a cerimónia de entrega dos prémios, que seria patética se não fosse pateta, a roupa do Tó-Zé Brito.

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Gelson

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(Postal colocado ontem no És a Nossa Fé)

Fico francamente estupefacto face à onda de simpatia, qual compreensão, para com o acto do Gelson Martins ontem em Alvalade. Por duas razões. A primeira, mais rasteira, isto da bola e dos hipotéticos triunfos: o jogador já tem 22 anos, cumpre a terceira época na equipa principal, na qual decerto que sabe ser figura fundamental, é internacional A, e é um profissional bastante bem pago, ainda que possa aspirar a novos e “arábicos” contratos, desses que animam a cena futebolística actual. Ou seja, é já experiente e exige-se-lhe responsabilidade. Presume-se ainda que tenha alguma compreensão do que o que o rodeia e espera: diz-se que Garrincha quando se sagrou campeão do mundo no Suécia-58 não sabia que o campeonato tinha acabado, denotando a bruma (genial, mas obscura) em que dirimia o seu inesquecível talento. Mas espero que Gelson, para seu bem, extra-futebol até, não seja epígono dessa abstracção existencial. E que assim saiba, pelo menos, o “jogo” que a vida lhe prepara, o “calendário” que aí vem. Pelo menos o a curto prazo, que, de facto, é o máximo que podemos antever com alguma razoabilidade. Em suma, que soubesse que a próxima jornada é fundamental para as aspirações do clube que o formou, acarinhou e lhe paga. Fazer-se expulso, isentar-se desse compromisso, é totalmente inaceitável. Mimar um jogador querido, “da casa”, competente, ainda para mais jongleur, assim alegria do povo? Sim, com toda a certeza. Mas aceitar isto que aconteceu, “compreendê-lo”, é estragá-lo com mimos. Gelson está em dívida.

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Não se lhes pode tocar

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(Alain Woodrow, Informação, Manipulação. D. Quixote, 1991. Tradução, Notas e Adaptação de José Manuel Barata-Feyo).

Mais de dois milénios de hermenêutica bíblica não podem deixar que gente formada no contexto da cristandade se possa surpreender com as contradições, polémicas e até guerras, provenientes das diferenças nas interpretações dos textos. A diversidade dos contextos históricos, culturais e simbólicos, linguísticos, de erudição e de sageza dos leitores, e dos seus objectivos, a isso conduzem. Mas, caramba, quando os textos são transcrições de gravações de discursos orais, produzidos no mesmo contexto sociocultural, linguístico e geográfico, e numa radical contemporaneidade (ontem, anteontem), as muito diferenciadas interpretações têm um aspecto assim um bocadinho para o … interesseiro. Ou, vá lá, sejam apenas fruto da pressa. Pois lemos e vemos num ápice, a reacção epidérmica é forma dominante de reflectir (friso que também falo por mim) e todos temos urgência em opinar – escrevendo, “partilhando” (nesta era de FB-Twitter), falando. Pois, como terá dito Descartes, “partilho, logo existo”.

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As palavras do presidente

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(jpt, estupefacto mas nada incrédulo)

(Dada a polémica intra-sportinguista da semana passada outro postal que coloquei no És a Nossa Fé).

Bruno, aclamado, disse-nos “querem que me cale?, querem que não escreva no FB?” – como tantos querem, mesmo seus apoiantes – então não comprem jornais, não sustentem as televisões, não colaborem no ruído cacofónico e interesseiro que tanto abunda… Eu nisso estou muito à vontade: há imenso tempo que não compro jornais desportivos (e aqui bloguei sobre a minha relação com eles); desde o execrável “A Noite da Má Língua” que abomino o modelo de televisão radiofónica (uns maduros, mais ou menos conhecidos, a dizerem piadolas, a rirem-se das piadolas que eles próprios dizem, e botando “opiniões” lite sobre tudo e todos, quantas vezes obviamente encomendadas e/ou interesseiras, sobre um cenário barato a encherem horas de transmissão dedicadas a audiências estuporadas), que há anos se exponenciou neste rol de “painéis futebolísticos”, cada vez mais abjecto. Não estou, assim, nada incomodado com a troca que o Bruno nos pediu. De facto, até a acho tímida. Eu acrescentar-lhe-ia, por óbvia necessidade, “não comprem os produtos que ali publicitam”. Mas isso sou eu, nada mais. A questão é outra …

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O show real de Bruno, o “Moreno”

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(A semana passada foi de grande polémica no Sporting. Aqui deixo um postal que a esse propósito coloquei no És a Nossa Fé)

Num texto com algum interesse no Expresso, Rogério Casanova abordou o “affaire” AG do Sporting e referiu a diferença de concepções de poder que existem entre a de Bruno e as de muitos dos seus críticos. Algo que interpreto assim: Bruno não se entende (pois não se quer entender) como um presidente acima da “nação” sportinguista, sobre nós pairando, conduzindo-nos e até iluminando-nos, mas muito mais como um líder à frente da “tribo” unida atrás dele, e pronta para as suas investidas – um pouco como o Ragnar Lothbrok do magnífico folhetim televisivo “Vikings”.

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As cinzas da Beira Alta, exposição de Miguel Valle de Figueiredo

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(Fotografia de Miguel Valle de Figueiredo)

Passam hoje exactamente quatro meses sobre os tétricos incêndios no distrito de Viseu, entre o concelho de Tondela e seus limítrofes, devastando a “Beira Alta”, na segunda apocalíptica volta dos incêndios florestais de 2017, dessa vez causando mais de 40 mortos. Desde então o meu amigo Miguel Valle de Figueiredo (o mvf, que durante anos co-blogou comigo) percorreu aquela região, que bem conhece, calcorreou mato, lugares, aldeias, vilas, encarou a gente que ali teima, desta ouvindo do horror de então e da violência posterior, advinda da arrogância burocrática de quem vem podendo. Nisso fotografou as “Cinzas” promovidas pela fúria dos elementos, o desnorte nacional e a incúria estatal, até abjecta. Enquanto uns, urbanos, se menearam vaidosos insanos, lamentando-se “de não ter tirado férias” ou, pelo contrário, “iam de férias” e pediam para “não os fazerem rir” a propósito destes e doutros assassinos fogos, e se gabavam de se preparar para as “cheias de inverno”, inaugurando casas refeitas com dinheiro alheio, apregoando ter revolucionado as florestas como nunca desde a Idade Média, e se faziam entrevistar em quartel de bombeiros, o Miguel foi para aquele lá, verdadeiros “salvados” de um país que insiste em desistir de o querer ser por via do apreço que vota aos tocos que julga gente, e até elegível.

Dessas suas andanças, vindas do seu fervor de fotógrafo e do seu dever de cidadão, produziu, a expensas próprias, pois não é ele daqueles capturáveis por Estado, municípios e respectivos tentáculos, tão pródigos se mostram esses para os fotógrafos “camaradas, companheiros e amigos”, um manancial iconográfico, uma verdadeiro arquivo para alimentar uma memória social do acontecido, deste sofrido que a história recente do país se mancomunou para gerar.

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A inveja nas redes sociais?

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(Martin Luther afixando um postal no “site” da capela de Wittenberg, 31.10.1517, sem indicação de hora)

(Postal no Delito de Opinião)

Olho o pensamento da semana no DO, colocado pelo João André: “Um mundo completamente ligado electronicamente permite-nos partilhar a nossa vida. Mostramos viagens, sorrisos, festas, roupas, carros, concertos, sucessos profissionais. Fazemos likes aos outros na esperança que façam o mesmo a nós e invejamos. Invejamos o sucesso, o dinheiro, os parceiros, os amigos, a disponibilidade, os corpos, os brinquedos, a família. Invejamos a vida“.

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Carnaval

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No sempre horroroso carnaval tradicionalmente as parvas adultas vão de brasileiras, os parvos adultos de travestis, as meninas de princesas e os petizes do super-herói que a Disney mais tem promovido. Não seria tão mais se os putos fossem assim? E os adultos de helicóptero Kamov? Isso é que era uma brincadeira. A agitar os “valores” …

O solavanco sportinguista

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(Na passada semana o Sporting teve um solavanco auto-inflingido, uma assembleia geral de associados, que correu mal, seguida de destemperadas declarações do presidente. No blog És a Nossa Fé botei alguns textos sobre isso, os quais agrego aqui para meu arquivo.)

O fim da linha?

Há 10 anos bloguei um texto sobre o clube, “O Sporting e o “projecto-Roquette“. Resmungando contra o trajecto do clube desde que Pedro Santana Lopes fora eleito presidente. Num blog como este “És a Nossa Fé”, colectivo e clubístico, não me parece curial enfatizar possíveis dissensões e fazer intervir considerações externas às questões clubísticas e desportivas. Mas, ainda assim, explicito o que me parecia então, e me pareceu nos anos subsequentes a 2008: o Sporting era como se um micro-cosmos do país, com uma pretensa elite social (no nosso jargão, os “viscondes”) e económica (os membros das administrações das verdadeiras “indústrias” nacionais, a banca e a construção civil) a desbaratar os recursos existentes. Por razões de incompetência, falta de planeamento (de projecto clubístico e de projecto nacional), de arrogância sociológica e concomitante patrimonialismo. Nesse eixo o país “crisou”, devastado no âmbito da crise internacional de finais da década. E o Sporting, à sua escala, mirrou até temermos a sua falência económica e, quase, institucional.

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O Prémio Camões

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O Prémio Camões é um prémio político. É-o porque é estatal (e por natureza tudo o que o Estado produz é um acto político). Mostra-o o “costume”, que é orientação explícita, da alternância anual luso-brasileira da premiação (e não me venham com coisas, que conheço um punhado de ex-jurados, e isto é uma verdade factual). Um critério nacional, administrativo, assim um critério político, extravasando completamente a questão literária. Isso não o indignifica. O que o pode indignificar é o que os Estados podem fazer dele. Morreu, “de morte matada”, nessa sua condição política, no ano passado com o silêncio português (é um prémio luso-brasileiro) aquando do inaceitável discurso do ministro da cultura brasileiro quando o gigante Nassar o recebeu. Estou a falar de política e de representação do Estado: o ministro brasileiro, um fascistóide agredindo de modo inaceitável o premiado, também reclamou (como se en passant) para o seu Estado o monopólio da premiação. A apatetada representação portuguesa calou-se. E o “campo literário” português nem tugiu nem mugiu. Não veio mal ao mundo. Mas mostrou a tralha em questão, a do prémio e a das gentes do tal “campo”. Adiante.

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