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(Postal para o Delito de Opinião)

Aquando do horroroso ataque à Charlie Hebdo o então vice-primeiro-ministro britânico Nick Clegg teve estas fundamentais declarações: em democracia não temos o direitos de não sermos ofendidos. O que então disse devia ser um lugar comum, pois é a base da nossa sociedade democrática. Mas não é tão lugar comum. Seja a propósito de situações liminares, como as de então. Seja a propósito de questões (infelizmente) do quotidiano. Isto de agora, do “importunar”, que se quer criminalizar e que se criminaliza. Misturando-o com o assédio, com o exercício de poderes sob formas ilegítimas. Há atitudes que são, mais ou menos generalizadamente, consideradas imorais. Devem ser criticadas, são passíveis de sanções morais, sociais. E devem ser alvo de pedagogia e crítica pública – difundir, o que será difícil em tempos de mediática hipérbole “javardista”, que o “fazia-te isto e aquilo”, “quem me dera aqueloutro” é não só abjecto como é também sinal de enorme fragilidade e de incumprimento. Face às mulheres e também face aos outros homens. Mas não são crimes. E isto tem tanto a ver com os célebres como com os tipos que andam por aí a importunar as nossas queridas (“óh pai, o que tenho que ouvir às vezes”, dizia-me, enjoadíssima, a minha adolescente filha quando o outro dia cá em casa se discutia este assunto das “actualidades”).

É esta a questão fundamental. E quem não a percebe vai por aí adiante, pensando-se moralista (e justiceiro), na ânsia da proibição. Do “rogaçar” de lábios, do ligeiro encosto. Do vernáculo. Da relação “incestuosa” [há gente que se considera no direito de escrever em público e que considera suspeito (bestial, de facto) o amor entre padrasto e enteada. Mas que acha normal o amor entre dois homens ou duas mulheres. Recuem lá 30 ou 40 anos e vejam lá como estas representações, que surgem tão pomposas e veementes, se inverteram]. Da promiscuidade (os nossos intelectuais da direita já estão a saudar o regresso da ética à sexualidade, como se tivesse estado ausente). E por aí adiante. Numa concepção de regulação da vida social que se alastra às mais díspares dimensões, como a de nos dizerem que temos que guiar a 30 km à hora porque é mais seguro. E de nos proibirem de comprar rissóis porque não são saudáveis.

Lutar contra o assédio sexual, contra a violência masculina machista é fundamental. Mas não implica refutar a democracia. E é por isso que este assunto é tão querido aos anti-democratas. O estranho é que tantos democratas o não percebam, se esqueçam das fronteiras que têm que defender. Umas por cansaço, enjoo e até revanchismo contra os morcões. Outros e outras porque lá dentro, lá bem dentro, apesar deles-mesmo, alimentam o seu querido duende ditador. E nós não temos que sofrer o assédio desses malvados duendes. Tratem lá deles. Ou seja, inibam-nos.

 

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