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(Postal para o És a Nossa Fé, a propósito do Vitória de Setúbal 1 – Sporting 1)

A minha filha tem 15 anos, nunca viveu em Portugal, ainda assim é sportinguista (também com o pai que tem mal seria que não o fosse), foi uma vez a Alvalade (empate 1-1 com o poderoso Paços de Ferreira, se não estou em erro), e desde os seus 6 ou 7 anos vai de vez em quando (menos agora, lá no estrangeiro e eu por cá) ombreando no sofá com o depauperado pai, assim a ver a bola. Aconteceu isso no último Benfica-Sporting, em casa de bons amigos. E depois, já nós caminhando para o carro, desabafava ela (repito, nos seus 15 anos, sem conhecimentos enciclopédicos da matéria) “oh pai, é sempre a mesma coisa, há anos que é isto, levamos um golo no fim dos jogos”. Não, não estou a dizer “que da boca das crianças sai a verdade”. Pois ela já não é uma criança (ai, que saudades, ai, ai, como dizia o lampião Carlos Pinhão). Estou, pura e simplesmente, a dizer que até uma jovem nada fanática e algo distante destas coisas da bola constata o constatável.

Dito isto, grande borregada em Setúbal. Não inesperada – aos 81  minutos disse para mim (só no sofá) “hum, isto acaba empatado”, forma muito minha de tentar esconjurar as nuvens demoníacas que sentia no horizonte. Disse-o sem que o Vitória tivesse feito algo de relevante até ao momento. Mas porque é assim, a gente habituou-se. Para mim, falando honestamente, este empate esvazia as hipóteses do título quase até ao mínimo – são muito anos a virar frangos …, já sei onde isto vai acabar.

Mas há análises a fazer. Muitos outros percebem bem mais de futebol do que eu, e terão explicações endógenas para esta borregada d’hoje e para a situação mais abrangente. Uns falarão dos défices das acções no banco do treinador, outros das tácticas incorrectas, ou das disponibilidades físicas dos jogadores, de desiquilíbios no plantel, etc. Também posso opinar. Mas não tenho conhecimentos especializados, prefiro ler. Mas tenho a minha perspectiva sobre os fundamentos do falhanço. A qual se alimenta da minha formação profissional (sou antropólogo): o problema é cultural. Digamos que é uma cultura de cagança, de arrogância.

Explico-me: aos 87 minutos o querido Bruno Fernandes faz uma bela cabriola na área alheia, passa 3 ou 4 ou 5, remata e o guarda-redes alheio defende, in extremis como se dizia antes, a bola vai ao poste e segue para fora, originando canto. Bruno Fernandes é filmado na sequência. Ri-se. Não diz “foda-se, caralho, puta que pariu esta merda” e outras coisas similares das quais são feitos os diálogos dentro de campo, entre jogadores, com os árbitros (como Fábio Coentrão mostrou, com exuberância, aquando do penalti), entre os treinadores, o público, os apanha-bolas, os seguranças (a quem os iletrados chamam stewards) e etc. Não se irrita em proto-desespero por não ter marcado um golo que, naquele momento, significaria a quase impossibilidade de outro resultado que a vitória. Não, ri-se, como se tivesse falhado o 4-0, ou um tricórnio, ou até uma lendária manápula (a quem alguns chamam manita porque sonham ser espanhóis, em substituição dos catalães, pois estes hoje em dia muito relapsos a essa condição). É este o problema deste Sporting. A cagança. Por isso outros marcam que se fartam no fim dos seus jogos, quando precisam. E nós levamos.

Ok, pronto. Prometo que no meu próximo postal direi mal dos emails, dos árbitros, dos obesos paineleiros do Benfica ou do Sérgio Conceição.

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