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Leio que “A Casa das Três Girafas” do arquitecto Pancho Guedes, na rua Armando Tivane no bairro Polana (Maputo), vai ser demolida.

Há duas coisas aqui para contexto: a) a pressão imobiliária em Maputo é enorme, na vertigem de transformar as zonas “nobres” (entenda-se, ricas) da cidade em parques de prédios, sobredimensionados. Nesta zona o esquema histórico é simples: construção anos 1950/60s para a burguesia colona e algumas empresas; nacionalização pós-independência; aquisição a preços baixos pela burguesia nacional pós-1990s; venda dos talhões (edificados) a empresas internacionais de investimento imobiliário (principalmente desde finais de 00s). Tudo isto permeado pelo facto de que a ausência de capital desde a independência deixou o tecido urbano do Maputo central (o Maputo “cimento”) intocado durante décadas, ainda que decadente, interrompendo as transformações encetadas no final do período colonial, em que houve um novo plano urbanístico e um disseminação da construção de prédios.

Dizer isto leva logo muitos a resmungarem: uns no “malandros, roubaram-nos as casas no comunismo e agora vendem-nas no capitalismo”; outros “xi-colono, o que vocês querem são as casas de novo” – ou a preservação do Maputo qual Lourenço Marques do saudosismo, em termos analíticos. Então que fique explícito, não vejo ilegitimidade alguma neste processo histórico – até porque as terras assim edificadas já haviam sido expropriadas aos seus anteriores proprietários. É a história universal, uma sucessão da apropriações fundiárias, em prejuízo dos menos fortes;

b) o património arquitectónico e urbanístico erigido nos períodos pré-colonial (como a Ilha ou o Ibo) e colonial não é verdadeira e socialmente sentido como nacional. O mito do “desenvolvimento” afronta aquilo do “velho” – e isto não é de Moçambique, é do mundo. E uma história colonial de opressão implicava a exclusão das cidades, uma dicotomia social e racial (o “cimento” para a comunidade colona, o “caniço” para a colonizada – algo contra o qual Pancho Miranda Guedes escreveu e projectou). Ou seja, a relação identitária, “afectiva”, com as edificações, ainda para mais numa população imensamente jovem e suburbana, é muito ténue.

Para além da história há isto do presente, que se calhar conta muito mais: as cidades são vivas e têm que se renovar, demolir e reconstruir. Mas no contexto em que as novas Urbes chinesas e árabes são um “exemplo” (patético mas vigoroso) de como fazer e símbolo de progresso pouco haverá a fazer neste campo. Apenas dizer, lamentar, que é uma imbecilidade monumental (deixar) fazer estas coisas. Pode-se construir (e o Grande Maputo é enorme, e está com muito melhores acessos) sem devastar a história da cidade. E sem tornar o velho centro num inferno urbanístico. Promovendo até vários “centros” – como se tentou fazer nos princípios de XXI.

Alguns individuais ganharão menos com esse processo? Talvez. Mas também poderão articular-se na dinamização desses novos pólos urbanos. Aliás, muitos deles já estarão integrados nisso. E poderão deixar de pé as construções do grande arquitecto da cidade, que são, e poderão ser no futuro, seu emblema. Bastará haver vontade iluminada.

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Um pensamento sobre “A “casa das três girafas” de Maputo

  1. Casa dos meus avós (Dr. Luz de Sousa).
    Será uma enorme tristeza para a família se ocorrer a demolição de um bem tão querido

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