Guerrilha islâmica em Moçambique

Guerrilheiros islâmicos em Moçambique. Partilhar isto – ainda para mais não conhecendo a origem das imagens, o que deixa em aberto a hipótese da sua encenação – é também um acto de divulgação e, como tal, um acto algo irresponsável. Assumo-o. Tirando esses meus pruridos: isto é o mais plausível. E o há muito temido, pois qualquer pessoa que conheça o país espera, e há já muito, a emergência de algo assim.

 

Em relação às grelhas analíticas dois princípios a afirmar já: 1) tenho visto os habituais negacionistas, a afirmar que isto nada tem a ver com o Islão. Mentem, por ingenuidade ou estratégia. Pois a história das religiões proselitistas (como o cristianismo e o islamismo) sempre se fez com a Palavra e a Arma (assim, com maiúsculas, para enfatizar a santidade da coisa). E a história do islamismo, logo após Maomé, sempre se fez com guerra (na nossa cristã história safou-nos Poitiers) – por mais que os sábios demagogos do nosso pérfido “ocidente” queiram resumir tudo à maldade das “Cruzadas” as “Crescentadas” foram uma constante. E a história das guerras entre facções intra-religiosas também (como as nossas guerras religiosas europeias tanto o demonstraram). Ou seja, “isto” também é o Islão.

2) Agitam-se os do “sociologês”: atribuindo a responsabilidade (de facto, dizem-na “culpa”) disto às malevolências do Estado (“a corrupção da Frelimo”, agitam-se os do antigamente), à exclusão social, às assimetrias regionais, ao falhanço do modelo de desenvolvimento, etc. É o mesmo tipo de discurso que aponta a culpa dos estados europeus no terrorismo interno. De facto, esse sociologês vale nada: são “explicações” que tudo explicam (todos os fenómenos podem ser atribuídos a essas causas) e, como tal, em nada contribuem para a compreensão. E, em última análise, retiram a intencionalidade (o livre-arbítrio, os objectivos próprios, a racionalidade estratégica e utilitária) aos participantes. Pois, no afã de inculpar a perfídia ocidental (branca), o seu poder capitalista, e as suas sequelas pós-coloniais (em tempos ditas “burguesias compradoras”), são incapazes de verdadeiramente se libertarem do “eurocentrismo” que aparentam abominar mas que é o único eixo de pensamento que perseguem. Por isso menorizam as práticas e seus agentes. Infatilizam-nos. Barbarizam-nos. Dizendo que estes são o que são, perseguem o que perseguem, apenas porque desprovidos dos recursos económicos que desejam – “análises” que são apenas fruto um materialismo rasteiro, básico. Desvalorizador. E cego.

Em suma. Moçambique enfrenta guerrilheiros. Islâmicos, convictos, estrategas. Causados e com causas. A ver iremos no que isto dará. Lamentavelmente.

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Após o caso Nassar

nassar

Distraído, se calhar, só ontem (no FB) tomei conhecimento deste caso Nassar, o médico da selecção de ginástica americana, acusado de violentar 158 jovens mulheres durante cerca de 20 anos. Um caso horrível. Com duas lições aqui para o recanto português:

1. nos excertos do julgamento colocados na imprensa ouvem-se as declarações da juíza. Antes de condenar o homem a 175 anos de prisão, e num discurso tão veemente que corre mundo, a juíza pergunta-lhe “Are you guilty, sir?” e noutro momento (que não reencontro) diz-lhe “Sir, não é digno de voltar a sair da prisão”. O “Observador”, que muitos louvam, traduz “sir” por “você”, o que mostra bem o grau de morcanzice a que chegou o jornalismo português, mesmo o “fino”. Esta é uma monumental lição para a cáfila de juízes portugueses, cuja arrogância de funcionários públicos os leva a destratar os réus – mesmo um tipo destes, num julgamento hiper-mediático, recebe o “senhor” a que um servidor público está obrigado. Os juízes portugueses não perceberão isto, porque, iletrados como o Observador, traduzem “sir” por “você”, e cagões como funcionários públicos remetem-no para o “vossemecê” altaneiro e reduzem-no ao nome próprio desvalorizador.

2. conheci isto via partilhas no FB. Gente com júbilo comemorando uma pena de prisão perpétua e saudando uma juíza que diz “estou a dar-lhe uma pena de morte” (uma perpétua inultrapassável). As pessoas são abjectas. Este abjecto Nassar apenas põe em prática o que esses facebuqueiros são.

Porque não te calas?

(Postal para o És a Nossa Fé)

O enorme mundial de 1982 acabou com o Itália-Alemanha. Foi o melhor mundial que me lembro, o magnífico Brasil e o “menino d’oiro” italiano acima de tudo. Mas a final ficou-me na memória também por isto, o velho (então velhíssimo para mim, nos seus 86 anos) presidente italiano, Sandro Pertini, exultante na tribuna de honra, ao lado do chanceler alemão e dos reis espanhóis, entre outros (no filme a partir de cerca do minuto e vinte segundos). E com a belíssima cena, que não se vê, de sacudir o seu cachimbo e ofertá-lo ao treinador Enzo Bearzot quando este subiu à tribuna (ou será imaginação minha?). As imagens correram mundo (num tempo de tão menos imagens), tornando-se icónicas. E com vários sentidos: o velho presidente símbolo do adepto, “tiffosi”, mas também do combatente antifascista que via então a sua Itália campeã, cinco décadas depois dos títulos sob Mussolini. Ficou assim consagrado o direito ao festejo, exultante, na tribuna de honra.

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Meia-final da taça da Liga

Um jogo mau, 50 e tal faltas, para além dos lançamentos laterais lentos e da muita gente a rolar no chão como se em imenso sofrimento. Qualquer Brighton-West Bromwich tem mais futebol do que isto. Claro que é bom aceder à final da taça (em tempos dita Lucílio Baptista, agora rebaptizada CTT) e espera-se que não aconteça como na primeira edição do prestigiado troféu, quando o Vitória de Setúbal triunfou na final com o Sporting.

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Lusotropicalismo

Quando na 1ª década de XXI o Brasil se expandiu em África, no âmbito das celebradas relações “Sul-Sul” mas com uma lógica tão “neo-colonial” como as precedentes (ou mais, por avidez de neófito), algumas das suas grandes empresas aportaram a Moçambique e houve grande incremento de trânsito político (e de “cooperação”). E alguns dos seus agentes explicitamente apontavam que estavam ali “contra o colono” (o “ocidente”, o pérfido “norte”). Pouco depois tornou-se ali corrente o saber do quão a elite política brasileira, incluindo a família presidencial, participava nessa extroversão económica. 

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Grande Borregada

 

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(Postal para o És a Nossa Fé, a propósito do Vitória de Setúbal 1 – Sporting 1)

A minha filha tem 15 anos, nunca viveu em Portugal, ainda assim é sportinguista (também com o pai que tem mal seria que não o fosse), foi uma vez a Alvalade (empate 1-1 com o poderoso Paços de Ferreira, se não estou em erro), e desde os seus 6 ou 7 anos vai de vez em quando (menos agora, lá no estrangeiro e eu por cá) ombreando no sofá com o depauperado pai, assim a ver a bola. Aconteceu isso no último Benfica-Sporting, em casa de bons amigos. E depois, já nós caminhando para o carro, desabafava ela (repito, nos seus 15 anos, sem conhecimentos enciclopédicos da matéria) “oh pai, é sempre a mesma coisa, há anos que é isto, levamos um golo no fim dos jogos”. Não, não estou a dizer “que da boca das crianças sai a verdade”. Pois ela já não é uma criança (ai, que saudades, ai, ai, como dizia o lampião Carlos Pinhão). Estou, pura e simplesmente, a dizer que até uma jovem nada fanática e algo distante destas coisas da bola constata o constatável.

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Os Duendes Alheios

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(Postal para o Delito de Opinião)

Aquando do horroroso ataque à Charlie Hebdo o então vice-primeiro-ministro britânico Nick Clegg teve estas fundamentais declarações: em democracia não temos o direitos de não sermos ofendidos. O que então disse devia ser um lugar comum, pois é a base da nossa sociedade democrática. Mas não é tão lugar comum. Seja a propósito de situações liminares, como as de então. Seja a propósito de questões (infelizmente) do quotidiano. Isto de agora, do “importunar”, que se quer criminalizar e que se criminaliza. Misturando-o com o assédio, com o exercício de poderes sob formas ilegítimas. Há atitudes que são, mais ou menos generalizadamente, consideradas imorais. Devem ser criticadas, são passíveis de sanções morais, sociais. E devem ser alvo de pedagogia e crítica pública – difundir, o que será difícil em tempos de mediática hipérbole “javardista”, que o “fazia-te isto e aquilo”, “quem me dera aqueloutro” é não só abjecto como é também sinal de enorme fragilidade e de incumprimento. Face às mulheres e também face aos outros homens. Mas não são crimes. E isto tem tanto a ver com os célebres como com os tipos que andam por aí a importunar as nossas queridas (“óh pai, o que tenho que ouvir às vezes”, dizia-me, enjoadíssima, a minha adolescente filha quando o outro dia cá em casa se discutia este assunto das “actualidades”).

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A “casa das três girafas” de Maputo

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Leio que “A Casa das Três Girafas” do arquitecto Pancho Guedes, na rua Armando Tivane no bairro Polana (Maputo), vai ser demolida.

Há duas coisas aqui para contexto: a) a pressão imobiliária em Maputo é enorme, na vertigem de transformar as zonas “nobres” (entenda-se, ricas) da cidade em parques de prédios, sobredimensionados. Nesta zona o esquema histórico é simples: construção anos 1950/60s para a burguesia colona e algumas empresas; nacionalização pós-independência; aquisição a preços baixos pela burguesia nacional pós-1990s; venda dos talhões (edificados) a empresas internacionais de investimento imobiliário (principalmente desde finais de 00s). Tudo isto permeado pelo facto de que a ausência de capital desde a independência deixou o tecido urbano do Maputo central (o Maputo “cimento”) intocado durante décadas, ainda que decadente, interrompendo as transformações encetadas no final do período colonial, em que houve um novo plano urbanístico e um disseminação da construção de prédios.

Dizer isto leva logo muitos a resmungarem: uns no “malandros, roubaram-nos as casas no comunismo e agora vendem-nas no capitalismo”; outros “xi-colono, o que vocês querem são as casas de novo” – ou a preservação do Maputo qual Lourenço Marques do saudosismo, em termos analíticos. Então que fique explícito, não vejo ilegitimidade alguma neste processo histórico – até porque as terras assim edificadas já haviam sido expropriadas aos seus anteriores proprietários. É a história universal, uma sucessão da apropriações fundiárias, em prejuízo dos menos fortes;

b) o património arquitectónico e urbanístico erigido nos períodos pré-colonial (como a Ilha ou o Ibo) e colonial não é verdadeira e socialmente sentido como nacional. O mito do “desenvolvimento” afronta aquilo do “velho” – e isto não é de Moçambique, é do mundo. E uma história colonial de opressão implicava a exclusão das cidades, uma dicotomia social e racial (o “cimento” para a comunidade colona, o “caniço” para a colonizada – algo contra o qual Pancho Miranda Guedes escreveu e projectou). Ou seja, a relação identitária, “afectiva”, com as edificações, ainda para mais numa população imensamente jovem e suburbana, é muito ténue.

Para além da história há isto do presente, que se calhar conta muito mais: as cidades são vivas e têm que se renovar, demolir e reconstruir. Mas no contexto em que as novas Urbes chinesas e árabes são um “exemplo” (patético mas vigoroso) de como fazer e símbolo de progresso pouco haverá a fazer neste campo. Apenas dizer, lamentar, que é uma imbecilidade monumental (deixar) fazer estas coisas. Pode-se construir (e o Grande Maputo é enorme, e está com muito melhores acessos) sem devastar a história da cidade. E sem tornar o velho centro num inferno urbanístico. Promovendo até vários “centros” – como se tentou fazer nos princípios de XXI.

Alguns individuais ganharão menos com esse processo? Talvez. Mas também poderão articular-se na dinamização desses novos pólos urbanos. Aliás, muitos deles já estarão integrados nisso. E poderão deixar de pé as construções do grande arquitecto da cidade, que são, e poderão ser no futuro, seu emblema. Bastará haver vontade iluminada.

A guerra no norte de Moçambique

MOCIMBOAPRAIA

Cada vez mais habituais as notícias de ataques e assassinatos no extremo litoral norte de Moçambique. Por vias mais pessoais chegam-me notícias de ataques, imagens privadas (ontem mesmo filmagens em telemóvel de população na estrada falando sobre a situação e os ataques). E muitas especulações: a imorredoira cartilha marxista-leninista atribui aos “interesses americanos” a responsabilidade pelos acontecimentos, os radicais críticos do Frelimo aludem à responsabilidade estatal, como se esta criando uma “cortina de fumo” distraindo de outras questões, alguns mais estupefactos aventam “será a Renamo?”, outros querem reduzir a uma bandidagem, mas a esta não dando o tom elevado de “social banditry”. E há quem creia no anunciado movimento (oficial ou oficioso) “Al-shabaab”. Não sei do que se trata, não encontro iluminação no que tenho lido, tenho a minha mera crença – que nunca será a do “mínimo denominador comum” entre as várias versões. E que se alimenta de anos na perspectiva de que isto emergisse, vendo no norte e em Maputo as nuvens que o presumiam. Quem me dera poder ir comprová-la no terreno, inquirindo. Esperançado em provar-me errado. Porque há uma coisa, terrível, e inovadora no país, nesse presumível inimigo: não negoceia. Pois quer tudo – que é uma forma do “nada”, do vazio político. E se for esse ele não está encerrado no norte extremo, mas pujante e afirmando-se pelo país, como é visível a qualquer olhar interessado. A sociedade moçambicana, a modorra dos seus poderes, chocou a mamba? Parece-me que sim. Só espero estar errado …

Assédio?

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(Postal para o Delito de Opinião)

Fui professor durante quinze anos em Moçambique. Onde o problema do assédio sexual dos professores homens às suas alunas teve dimensões demográficas: num país que triplicou a população nos últimos quarenta anos, que herdou uma paupérrima rede escolar, e que teve as escolas e os professores dizimados, pois alvos preferenciais da guerra civil (1976-1992), a paz veio exigir um desenvolvimento apressado dessa rede escolar e, como tal, da formação de docentes. A qual se deparou, nos anos 90s e na década subsequente, com um problema tétrico: os professores eram uma das profissões mais devastadas pelo Sida – o qual, grosso modo, afectou 20% da população nacional. Foi uma hecatombe. Duas razões para isso: os professores primários e secundários, ao longo do país, e por mais mal remunerados que fossem (e são), eram dos raros assalariados, com acesso à moeda, e usavam-na para alcançar relações sexuais; os professores tinham múltiplas parceiras sexuais entre as suas alunas, dado que o exigiam em troca do tal dinheiro, da sua posição social reforçada, e para darem as suas avaliações positivas. Sobre esta temática não me vou por com exemplos, que conheço imensos, tão dramática, sociológica e … demográfica é. Incontornável. Também na universidade, onde fui professor, isso acontecia, ainda que em menor grau. Pois, de alguma forma, no país ainda pertence a alguma elite (num sentido muito amplo) quem chega à universidade, não estando assim tão desapoiado. Mas é uma realidade, e soube de vários casos, murmurados ou anunciados – o professor que não “lança” a nota, que “chumba” a aluna, pais de alunas que se vão queixar, etc. Assisti e saudei a criação do gabinete universitário de luta contra o assédio, interno à universidade, instaurado face à consciência do alastrar desse problema. O qual, evidentemente, emanava não só das concepções geralmente aceites sobre o “poder dos homens” mas também da continuidade das concepções (e práticas) existentes no ensino dos níveis anteriores.

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