Natal

Correio_da_Manhã_TV

A ala Cancionite que polui a sociedade portuguesa abomina o amplexo CM (pois este, qual mastim, abocanhou o Sócrates, esse mesmo de quem a dita ala tanto gost[ou]a, em formato original ou sob mero avatar). Só por isso é-me o tal CM algo simpático, ainda que nunca o veja. Ou leia.

Dito isto, o meu jantar de ontem foi frugal, a sopa de legumes, uma singela posta de bacalhau com uma farripa de couves e uma batata cozida. Uma parca fatia de bolo-rei. Meio copo de vinho. Já na hora da ceia, em casa, uma colher de chá de lampreia de ovos e um dedal de uísque (um “rótulo preto” que uma querida amiga teve a caridade de me ofertar). Dormi bem e o suficiente. O mata-bicho foi torrada com manteiga, debruada com uma fina camada de ovo mexido, e um bom chá preto. Chego assim àquela hora do almoço o impecável que esta era etária me permite, sem azia, ressaca ou modorra. E até contaminado pela alegria que os familiares exsudam. Sem excesso de acedia ou ponta de ira. Ainda assim dou graças ao deus que a mole circundante comemora, no seu formato filial, ao encontrar aberto o estabelecimento “Ali”, onde os quatro empregados, decerto que infiéis e porventura indocumentados (como sói dizer-se), se afadigam a servir clientes solitários (ou sozinhos, vá-se lá saber …). Simpáticos, disponibilizam-se para me servir o par de bicas de que estou, apesar do já aludido bom “estado da arte”, necessitado. Sento-me a bebê-las na marquise a que chamam esplanada, decerto que feita à revelia de uma qualquer postura camarária. Na qual pontifica a CMTV, como é actualmente mandatório nos estabelecimentos de “restauração”, como é também agora curial referi-los.

Enquanto bebo o primeiro café e depois o segundo a televisão ali transmite a notícia de um atropelamento em Moscovo, 5 mortos e vários feridos numa escada do metropolitano. Distraio-me a acompanhar a notícia – o incidente (atentado?) foi filmado por câmaras de vigilância. A CM TV transmite, vejo ali no “Ali”, incessantemente as imagens do autocarro a descer umas escadas e a atropelar pessoas – fazendo-as literalmente desaparecer. Uma vez, segunda vez, terceira vez, quarta vez, etc … até eu acabar os cafés. Eu não me venho com uma merda destas (sim, é dia de Natal, um tipo não deve falar do pecaminoso onanismo, nem o próprio nem o alheio) e, como tal, levanto-me e vou fumar um cigarro para fora da marquise, perdão, da esplanada. A lamentar, mas com muito desprezo, a pobre gente que precisa disto para expelir fluídos.

Depois meto-me no carro, na via para norte do Tejo. Vou já Haddock. Podem os trastes que padecem de Cancionite (e tantos que propositadamente tatuaram essa maldita maleita) não gostar do amplexo CM. Mas isso não me impede de também o desprezar. Imenso. Acalmo no tabuleiro da ponte vermelha – a lembrar-me que é natal, é desaconselhável falar de política entre a família. Que ainda azedam as azevias e avinagra o vinho. E venho aqui ao blog. Serei assim melhor conviva para o repasto que se segue. E manter-me-ei frugal. Por causa dos tais efeitos colaterais, aquele da acedia, o outro da ira.

Anúncios

Zena Bacar

zb

Morreu a voz canónica do norte de Moçambique, a diva da Ilha se se quiser, ainda que nunca assim dita, pois muito mais a diva vinda da Ilha, a sempre voz dos Eyuphuro.  É assim um muito, enorme, do norte de Moçambique que enrouquece. Últimos tempos de vida difíceis, lia-se na imprensa. Escassez de registos musicais, o que ainda mais se nota nos raros filmes disponíveis na internet. Textos quase nenhuns. Fica a voz e o estar. Que foram enormes.


/

~

Moçambique, de José Cabral

cab

Hoje é a apresentação de “Moçambique”, o livro do fotógrafo moçambicano José Cabral (edição conjunta XYZ Books (Lisboa) / Associação Kulungwana (Maputo). Cerca de 150 fotografias, a maioria, como é costume no Cabral, no preto-e-branco mas também com uma incursão nas coloridas. O livro tem dois textos, enquadrando a “coisa”, um de Alexandre Pomar, que organizou a publicação, e outro de Drew Thompson, americano especialista na história da fotografia moçambicana. Hoje, dia da festa por causa do livro, o preço será de 20 euros, uma verdadeira pechincha para uma peça destas. A tal festa acontecerá no “Irreal”, Rua do Poço dos Negros, 59, em Lisboa, naquela hora das 19.

O Zé Cabral é um entroncamento na fotografia de Moçambique. Quem desta conhece algo sempre refere os mais-velhos, icónicos, pelas fotos e por eles próprios, tipos sui generis (passe a aparente contradição), ambos “maiores do que a vida”, Ricardo Rangel e Kok Nam, grandes fotorepórteres, que narraram e construíram a história do país, e que marcaram as gerações seguintes dos fotógrafos por lá. O Cabral vem a seguir, porque é mais novo, entenda-se, sui generis também, pois “mais complexo do que a vida”, e escapou-se à reportagem, pouco ou nada atreito à disciplina da imagem correcta para ilustrar o discurso correcto, requerido por quem a podia requerer. E assim se pôs a construir o seu mundo, num carinho sulfuroso. Foram estes seus passos que mostraram no país outra forma de falar com a câmara, essa que veio a impregnar os fotógrafos mais novos, que se têm agora tornado conhecidos: Felix Mula, Mauro Pinto, Mário Macilau, Filipe Branquinho.

Há alguns anos Alexandre Pomar escreveu o texto para o catálogo da exposição “Anjos Urbanos” e apanhou bem o Cabral.

Até logo?

Os meus vizinhos

gb

Há ainda quem não goste do Facebook, e alguns sentem isso sem qualquer blaseísmo. Eu gosto, com a minha experiência de emigrado e agora de torna-viagem. Como fonte de informação. Mas também porque forma de contacto com amigos e conhecidos mais ou menos distantes, sabendo novas dos seus passos, relevantes ou quotidianos. Dos seus afazeres e gostos. Da sua vida. Dos seus prazeres, pesares e pensares. E, porque faz parte da vida – e a minha geração já chegou a essa idade, e devemos ombrear nisto -, da sua degenerescência, a miopia, surdez ou até já demência. Como a que reconheço agora em alguns mais ou menos próximos lisboetas, que avizinho no Facebook, há alguns anos indignados e/ou irónicos com a senhora Jonet porque recomendava que não se comesse carne todos os dias. E agora já calados, alheados, porventura no ensimesmamento da senilidade, com esta “raríssima” senhora. Ou, um ou outro, balbuciando, com a vetusta queixada em tremuras, “tecnoforma”.

Viva Spacey

gspacey

Já estive para blogar um texto “Je suis Kevin!” mas censurei-me (enfim, sou pai, que pensaria a minha filha? …). Mas esta nova notícia é espectacular, gargalhável, obriga-me a botar. Então não é que o mariola foi apalpar o príncipe lá da Sildávia, e no próprio palácio dele … O gajo é um radical, sem limites. Ou seja, literalmente desbragado. Será até, porventura, um pouco uma bicha louca (eu sei, a expressão é um bocado preconceituosa. Mas é usada também por homossexuais, assim entendo-a legítima). G’anda Kevin. A notícia tem também duas implicações políticas: a primeira, lateral, é um estalo nos pobres monárquicos, sempre ciosos de uma qualquer superioridade das linhagens. Pois é óbvio que um cavalheiro nunca falaria em público de uma coisa destas, quanto mais um genro de rei. Assim mostrando-se qual mero espectador de reality show, como qualquer sub-plebeu. Enfim, o episódio serve para fazer engolir a patetice monárquica.

A segunda é mais actual, pois isto mostra bem o ambiente e a injusteza (e injustiça) do execrável ambiente que vem acontecendo. Um tipo é jovem e lê, por exemplo, uns contos do Tennessee Williams e, apesar de tender para outro lado, acha-os o máximo. Como contos, acima de tudo, mas também como liberdade. Depois envelhece e vê este pérfido retrocesso, como esta horrível coisa que andam a fazer ao Spacey – despedido e até o apagam de filmes, pura censura diante do silêncio da dita “esquerda europeia”, sempre tão atenta às censuras e perversões de Hollywood. É de lembrar, isto é um ambiente criado pelo fundamentalismo “genderista” / “identitarista”. Em última análise é autofágico (pois cairá em cima dos seus mais acérrimos defensores, vituperando comportamentos ditos “alternativos).  Pois, de facto, a única coisa de que Spacey é acusado é de ser “promíscuo” (palavra que é um programa político, moralista). Foi moral e profissionalmente linchado por razões políticas – por não se ter assumido como homossexual, e como tal ser uma “fraude”, disse o primeiro delator. Ou seja, por não integrar as fileiras do movimento político “gay”. Nisso acusado de violências morais e físicas, e até pedofilia (a monstruosidade dos nossos dias). Mas de facto o gajo não é mais do que um atrevido, tanto apalpa o tal “príncipe” como diz ao jovem no bar “vamos lá …”. Não assenta o seu (in)comportamento no poder que tem, mas sim no risco (deve ser uma personagem …). Não é que eu esteja a secundar a abordagem (eu, a quem até o canto do olho se engasga, tímido e corado, quando passa alguma senhora mais apresentável). Mas isto não tem nada de violento (“é a vida”, como se diz em inglês) e está provocar a sua lapidação. Pelos radicais homossexuais (em formato autofágico, e nem parece estarem a compreendê-lo). E pelos moralistas mais conservadores. E, apanhando a crista da onda, como se na praia da Nazaré, pelas mais reaccionárias das militantes do “género”, excitadas em versão de mera tradução heterossexual deste fascismo, que tudo quer transformar em “assédio”. Mas, para além disto tudo, fica o fundamental – isto do sacaninha do Spacey ir lá apalpar o decerto que cagão do pseudo-príncipe. Yes!

Prenda de Natal

gogo

Estamos já na época das prendas. Aqui fica uma sugestão: tem(ns) um parente/amigo que é algo dado à leitura? Dê(á)-lhe o “Almas Mortas” de Gógol. É uma delícia. E uma obra-prima. Características que nem sempre vão juntas, que há obras-primas que se vivem com labor. Mas esta nada disso. E isso é importante nestas coisas das ofertas. Entenda-se, o tal parente/amigo a ofertar não precisa de ser um “grande leitor”. Pois a prosa é fabulosa, o texto jovial, e um ir até ao osso da “sociedade russa de XIX” (entenda-se, da humanidade). Um tipo (re)lê exaltado de prazer. E um (quase) constante sorriso na cara, que é o da felicidade na leitura.

A tradução é de Nina e Filipe Guerra (ele um ex-bloguista e também facebuquista). E esta leva de livros é uma reedição (ou reimpressão, nunca sei como definir). O preço em livraria é de 20 euros (o que para a maioria de nós implica que o ofertado tem que ser bastante próximo). Mas o texto vale mais do que qualquer garrafa de uísque ou aguardente ou pacote de chocolate ou perfume, garanto. Comprado na internet vai a 15 euros – e sobrarão os 5 euros para as azevias.

Nota: atenção aos mais relapsos à poesia. Se o título na capa diz “Poema” o texto é em prosa, que isso não vos afaste da compra/leitura. (Eu, vil censor, informei as senhoras livreiras da Bertrand que talvez fosse melhor, comercialmente falando, tirar o livro da estante “Poesia” e deixá-lo no de “Literatura Estrangeira” – não vou comentar sobre estas etiquetas. O que elas se aprestaram a fazer. Não estou certo de que o escritor aplaudisse o acto. Mas espero que o editor tenha apreciado. Ou, pelo menos, o seu contabilista).

A EMEL nos Olivais

cc01

Esta foto de 1993 mostra o início da construção dos edifícios numa área descampada nos Olivais-Sul, então dita “centro cívico” e que veio a ser o actual centro comercial e habitações circundantes. Toda a praça foi edificada. A construção, 25 anos depois, ainda não terminou – o que mostra bem da desadequação da dimensão planeada. Na mesma rua abriu-se uma estação de metropolitano, na extensão de 1998. Na rua traseira reabilitou-se uma escola C+S e construiu-se uma primária. Entretanto, e estabelecendo-se uma zona de serviços, as lojas dos antigos prédios, que eram áreas comunitárias, passaram a ser alugadas a pequenas empresas – algo que seria previsível. Nos Olivais-Norte também se fez uma estação de metro. E ali se avizinharam as instalações do aeroporto, em crescendo.

Em nenhum momento Abecassis (1980-1990), Sampaio (1990-1995)/Soares (1995-2002), Lopes/Rodrigues (2002-2007), Costa (2007-2015)/Medina (2015-2017), induziram ou estabeleceram parques de estacionamento adequados ao previsível aumento de trânsito. Nem no bairro nem a montante (neste último caso em articulação com outros concelhos). Esta praça (as ruas cidade de Bolama e de Bissau) é um arquétipo do política camarária lisboeta, a cedência total ao “construtivismo” desbragado, sem qualquer sensibilidade urbanística.

A presidente da Junta de Freguesia prometeu há 4 anos que nunca deixaria entrar a EMEL na freguesia. Reiterou a promessa nesta última campanha. Que fazer? Agora, em assembleias e nas redes sociais, surgem fregueses apelando à instalação dos parquímetros, dizendo-se cansados da falta de estacionamento provocada pelo afluxo diário de viajantes e funcionários. Alguns dos fregueses considerarão que esta é a melhor solução, face à situação. Outros, presumo, falam porque têm esta missão partidária, a de criar a vaga de fundo para que o poder autárquico solicite a entrada do pagamento para estacionar. Como defesa dos fregueses …

Em 30 anos (!) não houve um gajo na Câmara que pensasse (e actuasse) no problema do estacionamento que toda esta infraestruturação provocaria. E agora, neste bairro tão envelhecido, tocará a pagar para ir visitar os velhinhos. Entre outras coisas. “Porque é melhor!”. E depois o facebuqueiro/bloguista é que é azedo …

Fui ao futebol

spo-bel

(postal para o És a Nossa Fé).

Ontem Sporting 1 – Belenenses 0. Estádio muito cheio, claro, um dérbi, contra o 4º grande (ó Salvador, atenta bem nisto). Fui com o Miguel, meu afilhado, pastel. Aliás, ele e o cunhado dele, lagarto, levaram-me. É o 1º de Dezembro, cantou-se o hino, foi bonito e esteve bem. A sportinguista sentada exactamente à minha frente, acompanhada do seu pequenote e de uma amiga, é uma jovem senhora lindíssima, casaco branco cintado que lhe fica mais-que-bem, loura acobreada intensa – sim, intimidades que a vizinhança de bancada permite comprovar – que refulge. Raisparta, tivesse eu menos 20 anos (faria nada, claro, mas fica bem dizer isto) … O Sporting é solidário e os nomes dos jogadores nas camisolas hoje estão em braille. O defesa do Beleneses quis ler o nome do Podence e foi penalti. Golo! Levanto-me e sento-me. Cabeceio na primeira parte – está visto, não devia ter bebido tantas imperiais com a entremeada debaixo do viaduto da segunda circular.  Ai que saudades, ai, ai, do nougat ao intervalo. E da queijadinha de Sintra. O meu querido pastel está há horas a chatear-me com o 1-3 do ano passado, que veio ver. E agora diz-me que os três golos (deles) foram “naquela baliza”, a nossa da segunda parte. Joga-se. O casaco branco tão bem cintado agita-se, o cabelo ainda mais refulge. Os jogadores do Belenenses são rapazes jeitosos, esforçados, vindos do Atlético e do Oriental (“e do Olivais e Moscavide”, completo), mas não jogam nada, já resmunga o referido pastel, ali ao meu lado. Cabeceio mais, acho que passo pelas brasas, estremunho-me com os assobios aos nossos, regresso ao sono, acho que um dos brunos (o carvalho?) falhou um golo, o brian também, que esse vi, mas mal, já por causa das ramelas. Saímos depressa, eles para um jantar, eu para o metro, para não ver o Porto-Benfica, antes do “até amanhã” o Miguel pede-me desculpa de me ter convidado para um jogo destes, eu respondo que o Sporting merecia ter empatado e que eles mereceram a derrota. Agora é ganhar ao Barça e ninguém nos segura até Kiev. Pois há quanto tempo não temos sorte? Daquela verdadeira sorte? Este Ano É Que É.

Peçamos as desculpas …

1640_miguel_vasconcelos

Não estará na altura de reabilitarmos Miguel Vasconcelos? Considerarmos que foi assassinado por crer no / praticar o “europeísmo” de então, avant la lettre? Pedir, até, “desculpa” à figura e aos seus descendentes? “Não matarás; mas quem assassinar estará sujeito a juízo” (Mateus 5: 21) não era então, desde antes e até agora, o valor dominante na Cristandade (hoje em dia dita Ocidente)?