
Amanhã é a “última aula” de Alexandre Mate, meu amigo, meu “querido líder” – foi-o mesmo, nos 15 anos que foi meu chefe, como responsável do Departamento de Arqueologia e Antropologia da UEM.
Há momentos profissionais muito felizes. E para o autor deste cartaz este foi-o. A sua aparente singeleza, nisso até excêntrica, é uma acertada súmula do percurso e da personalidade do agora jubilado Alex Mate. Despojado, avesso a protocolos (tão habituais nas suas cercanias), invaidoso, acima de tudo nosso camarada. O seu esforço, continuado e nunca egocêntrico, sempre foi o do reforço institucional, a defesa da nossa autonomia (universitária, intelectual, e assim também política), através do possibilitar do máximo da formação de todos os colegas – e neles integrando as moles de alunos que acorreram desde finais de XX aos cursos de ciências sociais na então UFICS e, claro, em particular aos que se quiseram antropólogos. E que isso se associasse ao máximo de pesquisa possível, descentralizada – ou seja, não tutorada por si ou qualquer abencerragem, e não dependente de qualquer pólo preferencial de financiamento. Pois nada homem de “capelas” e sim de saber (e defender) que os caminhos dos homens são diversificados. É um modo de pensar muito raro. E foi uma tarefa muito difícil. No contexto. Como teria sido em qualquer outro contexto.
Mate trabalhou em particular questões que (nos) eram centrais nos tempos da nossa formação – as mudanças na produção e, como tal no trabalho, na dieta, e nas formas de organização social promovidas pelo sistema colonial no norte rural do país. E depois complexificadas no regime nacional actual. E, na sua tal aparente singeleza que acima refiro, nunca foi nem é homem de dizer “vão lá ler o que fiz” mas sempre de dizer “vão lá fazer o que eu lerei”. E isso é de uma grandeza, neste nosso ofício …
Espero que amanhã o auditório encha para a “última aula” do meu camarada chefe. Pois ele é uma grande personagem, apesar de nunca o querer parecer. Lamento imenso não estar lá. Apesar de estar.
Os grandes homens revelam-se no despudor e quantas vezes subvertendo o formalismo.
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