O Pesar

belmiro

Um voto de pesar na Assembleia da República pelo falecimento de alguém não é a expressão de condolências pessoais, é um acto político. Como tal é perfeitamente legítimo, ainda que possa (erradamente) parecer antipático, votar contra a expressão política desse pesar. Belmiro de Azevedo foi um grande empresário português, um grande capitalista como antes se dizia, e também foi simbólico desta nossa via económico-social. Assim sendo é perfeitamente normal que o PCP, como adverso a esta via, vote contra a expressão política de um pesar pelo seu desaparecimento. É isto a política e a sua componente ideológica.

Agora o que não tem qualquer tipo de pertinência, o que é mesmo incompreensível porque inexplicável, é uma abstenção. Por outras palavras, ou sim ou sopas. E assim sendo este pequeno caso político, a posição da assembleia face à morte do empresário, mostra bem a vacuidade medíocre dos … abstencionistas.

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A Última Aula de Alexandre Mate

mate

Amanhã é a “última aula” de Alexandre Mate, meu amigo, meu “querido líder” – foi-o mesmo, nos 15 anos que foi meu chefe, como responsável do Departamento de Arqueologia e Antropologia da UEM.

Há momentos profissionais muito felizes. E para o autor deste cartaz este foi-o. A sua aparente singeleza, nisso até excêntrica, é uma acertada súmula do percurso e da personalidade do agora jubilado Alex Mate. Despojado, avesso a protocolos (tão habituais nas suas cercanias), invaidoso, acima de tudo nosso camarada. O seu esforço, continuado e nunca egocêntrico, sempre foi o do reforço institucional, a defesa da nossa autonomia (universitária, intelectual, e assim também política), através do possibilitar do máximo da formação de todos os colegas – e neles integrando as moles de alunos que acorreram desde finais de XX aos cursos de ciências sociais na então UFICS e, claro, em particular aos que se quiseram antropólogos. E que isso se associasse ao máximo de pesquisa possível, descentralizada – ou seja, não tutorada por si ou qualquer abencerragem, e não dependente de qualquer pólo preferencial de financiamento. Pois nada homem de “capelas” e sim de saber (e defender) que os caminhos dos homens são diversificados. É um modo de pensar muito raro. E foi uma tarefa muito difícil. No contexto. Como teria sido em qualquer outro contexto.

Mate trabalhou em particular questões que (nos) eram centrais nos tempos da nossa formação – as mudanças na produção e, como tal no trabalho, na dieta, e nas formas de organização social promovidas pelo sistema colonial no norte rural do país. E depois complexificadas no regime nacional actual. E, na sua tal aparente singeleza que acima refiro, nunca foi nem é homem de dizer “vão lá ler o que fiz” mas sempre de dizer “vão lá fazer o que eu lerei”. E isso é de uma grandeza, neste nosso ofício …

Espero que amanhã o auditório encha para a “última aula” do meu camarada chefe. Pois ele é uma grande personagem, apesar de nunca o querer parecer. Lamento imenso não estar lá. Apesar de estar.

O massacre de Bir al-Abed

al rawda

O escabroso ataque à simbólica mesquita Rawda, em Bir al-Abed, com 300 mortos num templo, passa um bocado ao lado das nossas preocupações, por ser “demasiado” longínquo. Mas, mais uma vez como em tantos outros atentados na Ásia e em África, demonstra que o que se passa na actualidade é uma guerra interna ao islão (religiosa: contra modos de ser islâmico; política: contra formas “moderadas” [atenção às aspas] de articular teologia com sociedade). E, também, subsidiariamente, contra os incréus, exógenos. Ou seja, por um lado não se reduz a uma guerra do Islão contra a Cristandade (ou o Ocidente), uma “Crescentada”, como gritam os radicais pró-fascizantes por cá; e por outro lado não é mero fruto da malevolência ocidental (aka, “os americanos”) e da falta de uma política de “integração” social europeia, como s’indignam os bloquistas melenchonistas.

Isto está escrito e reescrito por quem percebe da história do assunto e do presente do assunto. Mas como estes radicalismos, tanto os da dita “direita” como os da dita “esquerda”, sempre vivem da ileitura dos seus tontos apoiantes talvez estas monumentais desgraças possam servir para que alguns deles (poucos, que a maioria é mesmo burra) abram os olhos e percebam algo do mundo em que vivem.

O tráfico de escravos na Líbia

madiba

Dizem(os) que é necessário ultrapassar os estereótipos. Mas eles são tão fundamentais para podermos pensar … Um dos que acarinho, qual farol, é este das blusas Madiba. Algumas são lindíssimas e, confesso, gostaria de ter o vibe para as usar. Mas não tenho nenhuma: quem me conhece sabe que nas coisas das vestes sou conservador, distraído, até desleixado (e quando só isto tende para o catastrófico). O que, na realidade, é também o reflexo da timidez – tenho lá eu cara para um três-peças ou corpito para um arco-íris destes? Enfim, entre a preguiça da escolha e a tal timidez nunca adquiri uma destas madibas (tal como nunca tive uma balalaica, essas que, política à parte, são óptimas de conforto e estética), e gosto eu tanto da memória de Mandela.

Mas não é só isso que me evitou o shocking madiba. Foi mais o estereótipo do white man in Africa. Post-colonial white man in Africa, se me faço entender. Europeus e americanos (“gringos” ou “hispânicos”) aquando em visita abaixo do Sahel embrulham-se nos tecidos arco-íris querendo-os nítida sinalização política, como se à saída dos aeroportos (dos hotéis, melhor dizendo) gritassem “irmãos camaradas”. É um folclore. Sentido, aliás, como tal por quem os vê assim passar.

Enfim, cada um como cada qual? Nem tanto. Estas encenações mostram um quadro mental. Indigente, por vezes. Racista, quase sempre. Cruzo o meu FB. Encontro um postal de um desses post-colonial white men. Que conheci em África há mais de uma década. Vinha ele e quem o acompanhava nestes propósitos. Antes de abrir(em) a boca já eu estereotipizava, claro está.

Diz ele o quê, agora, com a tal corneta do “irmãos camaradas” bem no seu âmago. Há tráfico de escravos na Líbia. A culpa é dos ocidentais, dos americanos acima de tudo, que invadiram o país.

Será preciso explicar o quão racista é a ladainha?

O livro do Delito de Opinião

DO

Projecto livro Delito de Opinião (clicar no nome do blog/livro para aceder).

Eu escrevo no blog colectivo “Delito de Opinião“, existente desde 2009, sempre coordenado pelo bom do Pedro Correia. Agora a equipa fez uma selecção de textos, de 17 dos bloguistas participantes ao longo desta quase década. E encetou o projecto de a editar em formato de livro. Ainda que vários dos bloguistas residentes sejam autores publicados, para este livro optou-se pela modalidade da subscrição prévia (dita “crowdfunding” pelos menos ágeis em português), através da editora “Bookbuilders” (que se poderia chamar “Construtora de Livros” ou similar, que teria muito mais piada, mas enfim …).

O esquema é simples: acede-se através deste elo (“link” para os menos versáteis no português) [Projecto livro Delito de Opinião] e subscreve-se o livro, pelo preço de 12,5 euros. Este será produzido mal obtenha 160 interessados – assim evitando-se os monos e o seu guilhotinar. E também se evitam os resmungos com as opções das livrarias – pois cada um dos subscritores receberá o(s) seu(s) exemplares em casa.

Aqui fica o pedido para que se associem a esta subscrição. O processo começou esta semana e faltam ainda 138 interessados, algo mais do que possível dado o universo de leitores do blog. Mas, mais do que tudo, para que leiam esta década de constante “Delito de Opinião”. Uma década muito interessante, começada ainda na era blogal e que, no caso deste blog, resistiu ao êxodo radical para as mais frenéticas “redes sociais” (twitter e, fundamentalmente, facebook).

Um outro ponto, mais abrangente: esta é também uma forma de nos habituarmos a pensar em outras formas de publicar livros, nesta era de aparente degenerescência funcional e intelectual do sistema de produção livreira.

As crendices

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(texto longo, a exorcizar a irritação):

Vou-me casar. Depois de amanhã. Apanho o avião, de Maputo para Lisboa, tão perto da cerimónia que até causei algum “frisson” nos meus mais próximos, até no geral dos convidados, naquilo do “se no caminho acontece alguma coisa…”, um qualquer algo que possa prejudicar a cerimónia. A minha noiva, a mulher da minha vida, por quem estou apaixonado, apesar desta idade que já me ocorre, veio à frente, há já quatro dias, para ultimar preparativos.

Entro no avião e constato que o acaso me senta ao lado de um conhecido. Jurista, antigo cooperante na Universidade Eduardo Mondlane, agora visita recorrente em Maputo, e com o qual já organizei sessões comuns, palestras e até sessões de apresentação de uma revista que ele coordena. Um tipo refinado, daqueles que percebi acima da mole que o Estado partidarizado costuma catapultar. Sorri-me, saúda e saudamos a coincidência, que nos faz juntos nesta noite de cruzarmos tamanha distância.

Bagagens arrumadas, preparativos terminados, cintos apertados, livros e revistas nos bolsos dianteiros, o avião parte. Conversamos, pergunta-me sobre a sempre complexa situação política moçambicana, de qual a minha opinião sobre o propalado “potencial económico” do país, acerca das competências e incompetências da política europeia, a célebre “ajuda”. Claro que abordamos a situação da dita “comunidade” portuguesa, tão aumentada nestes últimos anos. Fiel ao meu percurso inflicto para algumas recentes mutações nas artes visuais e até na literatura do país, procurando alertá-lo para vultos diversos dos já sacralizados.

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A Sala José Soares Martins (José Capela) no Camões-Maputo

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Ao longo dos tempos fui escrevendo sobre José Soares Martins, cujo pseudónimo de historiador era José Capela. Um texto mais longo (26 páginas, aos mais pacientes bastará clicar aqui) e breves notas sobre alguns dos seus livros (1; 2; 3; 4).

Encontrei 3 grandes eixos na obra historiográfica de Capela, ainda que a esta não esgotando: a) uma abordagem às formas como os processos de formação do capitalismo português (então proto-metropolitano) moldaram as políticas assumidas na colonização de Moçambique e, como tal, as interacções com as populações locais; b) como o tráfico internacional transoceânico de escravaturas a partir actual território moçambicano, durante o período pré-colonial e as primeiras décadas do efectivo colonialismo, até à sua erradicação no início de XX, marcaram as perspectivas políticas e culturais do regime colonial. Assim agredindo ideias superficiais: as que afirmam um precoce regime colonial português (isso dos “cinco séculos de colonialismo”, partilhado pelo mitos coloniais portugueses e pelos discursos nacionalistas moçambicanos); a da precoce proibição efectiva do tráfico nos territórios africanos reclamados em XIX por Portugal; a da bondade do colonialismo português; c) a análise da especificidade e complexidade histórica das formações sociais na bacia do Zambeze, desde o estabelecimento do regime dos “Prazos”, demonstrando a centralidade do complexo fenómeno do “escravismo” naqueles contextos.

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O Savana

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Semana algo acidentada, esta minha. Deparei-me com esta absurda situação na Universidade Eduardo Mondlane, onde trabalhei durante anos. Fotografei e partilhei no meu mural do facebook, insurgindo-me. E constatei a energia dessa “plataforma” (como se diz) de comunicação, a rapidez das partilhas que possibilita, a cascata de comentários relativos. Os blogs estão ultrapassados, não têm a capacidade de interacção e integração que FB (e talvez o twitter) têm. Tenho pena e nostalgia – não só pelo suporte em si, mais repousado e amigável, ordenável. Mas também porque o texto, mais cuidado e burilado, é antagonizado por esses “suportes” …

Entretanto esta minha fotografia foi seleccionada como “imagem da semana” no jornal “Savana” (sem identificação, uma pilhagem que é uma longa tradição naquele jornal, tanto em imagens como em textos). De qualquer forma o que interessa é que a recuperação do painel de Malangatana no edifício do Centro de Estudos Africanos da Universidade Eduardo Mondlane se tornou numa necessidade pública.

Sobre o “Ponta Gea” …

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Volto ao “Ponta Gea”, o recente livro de João Paulo Borges Coelho. Fartei-me de o recomendar – na minha conta na Academia.edu (o texto está aqui), no blog, na goodreads, no facebook, boca-a-boca, blog, entre-uísques, twitter, na via das 2M, email, acho-o belíssimo. Acontece que tanto em comentário no blog como em mensagens privadas sou informado que o livro está inexistente nas livrarias portuguesas – dito “esgotado”, até nas pesquisas na internet (que só os leitores mais sequiosos fazem), quanto mais nas estantes das livrarias (escaparates já nem digo, que o homem é pouco “exótico” para ser afixado). Ou seja, o “Ponta Gea” – que comprei na Bertrand dos Olivais, pela nada módica quantia de 20 euros – está “desaparecido em acção”. Eu a aborrecer as pessoas com a minha “sugestão” e para nada. Peço desculpa pelo incómodo.

Entretanto, se alguém tiver tempo e paciência, poder-me-á explicar que raio de estratégia de comercialização de livros é esta a da Editorial Caminho? A deixar desaparecer um livro destes, que publicou há tão pouco tempo?

Adenda:

Já referi o que entendo ser o assassinato deste livro por parte da sua editora, a Caminho. O livro foi apresentado num congresso sobre o seu autor em Julho e julgo que colocado à venda em Portugal em Setembro. Como muito dele gostei divulguei-o através de várias redes sociais. Recebi várias questões sobre onde seria possível adquiri-lo, dado que inexistente nas livrarias. E porque nem sequer aparece nas pesquisas na internet (o que só uma escassa minoria dos leitores faz). Em Setembro consegui encontrar um exemplar numa Bertrand (cerca de 20 euros). Agora o meu FB-amigo Luís Serpa avisa que o comprou, em primeira mão, na Voz do Operário, por 3,5 euros. Ou seja, já está transformado em mono.

Esta forma pateta e incompetente da editora tratar o livro terá várias explicações. O editor já me disse que o “João Paulo Borges Coelho não vende” – talvez não venda muito, mas assim não vende mesmo. Eu tenho outra explicação, que talvez seja uma teoria da conspiração. Mas considero que é propositado: à ampla estratégia comercial da Caminho (Leya) nunca conveio (e cada vez convém menos) que o JPBC seja um autor mais lido e reconhecido. Só não vê quem não … lê. Penso-o há mais de uma década. E não vale a pena dizer mais nada.

A apresentação do “Costumes Ancestrais dos Makhuwa-Metto…”

rafael

Aconteceu ontem, a apresentação deste “Costumes Ancestrais do Povo Makhuwa-Metto …“, um pequeno trabalho de recolha etnográfica realizado em 1958 por João Eduardo da Conceição, pai do meu colega Rafael da Conceição, que agora o organizou e fez publicar. É um objecto excêntrico na história intelectual do país, e isso sublinha o seu interesse. Espero que as breves centenas de exemplares que foram emitidas sejam rapidamente adquiridas.

Participei na sessão de “lançamento”, como se diz. Após três anos de ausência do país perdi alguns hábitos, “desnaturalizando” rotinas que adquirira. Assim sendo estranhei, desconfortado, o tom pesadamente protocolar do evento. Para depois, só depois, chegado a casa, me ocorrer que lá de onde venho, onde o protocolo vai mais suave, com toda a certeza que as autoridades políticas não atentariam na publicação póstuma de um opúsculo etnográfico escrito há 60 anos. Talvez que o férreo protocolo não seja assim tão descabido, deitei-me assim a pensar.

O professor Gerhard Liesegang falou. E, sem rebuço, lembrou(-nos) que estando nós ali na Matola deveríamos recordar que desde o tempo colonial (ele explicitou 1971) a construção das infraestruturas públicas e do parque habitacional tem sido acompanhado pela devastação das estações arqueológicas.

Eu também botei, pois coube-me apresentar o livro. Falei tempo demasiado, disseram-me, implacáveis, os amigos e colegas presentes. “Para quê comprar o livro se disseste tudo o que lá está?“, a pior crítica que se pode fazer a um apresentador – e que eu já resmunguei tantas vezes -, coube-me a mim desta vez. Tem alguma explicação, que é pedido de desculpas: lá na minha terra não tenho quem surja com interesse nas minhas elaborações, venho aqui e a simpatia circundante solta-me a verborreia, aprisionada pelo meu silêncio boreal. Enfim, peço desculpa ao Rafael da Conceição e sua família, e aos seus convidados de ontem, pela “seca” que dei. Ainda assim deixei o texto que li na minha conta na rede Academia, é este “Apresentação …” para quem tenha algum interesse no livro.