Em Nampula

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Quinta-feira passada, já a noite começara, cheguei ao aeroporto de Nampula. Apanhei um táxi e telefonei ao amigo que me era anfitrião, que me explicasse ele o destino. Despercebi-lhe a exactidão e fiquei nas cercanias e, mera mochila nas costas, cruzei duas ou três perpendiculares até ao nosso reencontro. Algum tempo depois percebi que esquecera o telefone – o ultrasónico iphone que mão querida me havia ofertado – no táxi. Telefonou-se para o número, sem resposta de início. E, depois, sem sinal. Resmunguei-me a senilidade, chorei o dinheiro necessário à reposição. No dia seguinte madruguei e segui à Ilha de Moçambique. Ontem regressei. Chegado ao aeroporto, e apenas por descargo de consciência pois sem qualquer esperança, pergunto aos taxistas se sabiam de algum telefone perdido num dos seus colegas. “É você!? Sim, sim. Ele disse que era de um branco com uma pasta”, pois passara palavra entre os seus do acontecido. Logo lhe telefonaram, e quinze minutos depois lá estava, com ar um pouco aliviado mas mais até contente. Que regressara até à casa junto à qual eu ficara, mas onde me desconheciam, que tentara telefonar mas, claro, desconhecia o código do telefone. Que estava preocupado comigo.

A gente envelhece e descrê nos outros, torna-se cínico. Depois encontra um tipo como o senhor Moti (ou Mote, que isto da pronúncia macua sempre me conduz ao erro gráfico), dos táxis da Praça do Aeroporto de Nampula (estão identificados), e rejuvenesce. Obrigado Moti, pelo aparelho. E pela recrença.

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Driol

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Estes eram (alguns dos) putos da Bolama, nos finais de 1970s, aqui fotografados nas célebres “escadas dos Pachecos”. A vida apartou alguns mas os outros ficámos manos. Logo nessa época a morte levou-nos o Nuno, tão lindo. E agora, neste 17, décadas passadas, regressou, a malvada. Inesperada, a arrancar-nos o (para nós sempre “puto”) João, assim deixando uma chaga que os meses não saram. E ontem, já esperada, pois ele muito doente há bastante tempo, que tão resistente foi, o Driol.
O Sandro era da “geração acima”, 4-5 anos mais velho. Por isso então a seita dele era outra, esses que a gente conhecia de vista e nome, cobiçando-lhes as motos e as maravilhosas namoradas. Ou pelos irmãos mais novos. Mas, vizinho, também acampava por vezes, e, mais tarde, já nós mais crescidos, ainda mais, já ombreando.
O Drinô (como alguém graffitou em fugaz era de influência do “glamour rock”) era um dos tipos mais idiossincráticos que havia – e tantas décadas passadas ainda dele tenho imensos fogachos: o espeta de moto nas traseiras da minha casa, a que acudi dado o barulho; a dicção peculiar; aquela tão sua casquinada; e, depois, mais tarde, o apreço pela BD; a generosidade da partilha, ainda que muito cuidada, ponderada; o chamar-me, e era o único nisso, Zezélio; e, talvez mais do que tudo, um verdadeiro espanto com coisas do real que, por vezes, eu, jovem boçal, julguei candura mas que era, mesmo, curiosidade e entusiasmo.
Mas o que muito marcou a imagem pública do Driol foi o ter ele sido o fotógrafo “oficial” daquela nossa geração: raros eram os que tinham máquina, ainda menos os que tinham dinheiro para rolos e revelações, apenas dois ou três os que tinham o gosto, mas só ele trazia a tiracolo a paixão de fotografar. Mas na foto acima ele estava do lado de lá, entre – não me recordo quem a tirou, talvez o Vilão, talvez o Pampan.
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[Rua Vila de Fulacunda, Olivais-Sul. Fotografia de João Alexandre Taborda]
E fez um arquivo lindo sobre aquela época de “dias gloriosos”. Nesta foto estava a fotografar os irmãos mais novos da sua geração, os finais dos anos 70s, os putos a descerem (descermos) as ruas nos carrinhos de rolamentos. Em tantas outras tem os outros, as andanças de nós mais-velhos. Voltar ao acervo do Driol é uma delícia, cada um encontra-se e aos seus queridos de então, na beleza da memória. Certo, há uma “patine” afectiva que nos convoca. Mas há outro registo, bem mais alargado, há muito mais nesse legado do Driol. Encontra-se a memória da paisagem urbana como foi: as vestes, os tiques, os penteados, as poses – e quão cinéfilo tudo parece, ainda para mais naquele preto-e-branco. As ruas, os carros, as motos, a arquitectura então tão nova.  Mas é ainda mais do que essa memória social. Pois o Driol teve um olhar, amador mas muito cuidado,  e tão jovem sobre a sua geração naquele tão especial bairro. E assim nessa sua colecção o que nós encontramos não é o retrato daquela geração. É mesmo um auto-retrato, a voz própria de uma “malta”, esses que nos sonhámos “heróicos” naqueles confusos tempos do pós-pós-Abril. E, se calhar, fomos.

Sobre o escravismo

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Na semana que passou num belo mural de FB discutiu-se o escravismo a propósito de um artigo publicado na imprensa portuguesa. Há sempre os tipos da sacristia que aparecem nestas alturas mas, para além deles, houve uma boa troca de opiniões. Um queridíssimo amigo meu, historiador, lá deixou uma veemente invectiva aos “traficantes que romperam com a dimensão ética de reconhecer o outro.”. Nestas coisas dá-me sempre a sensação que as pessoas acreditam realmente que houve uma qualquer “idade de ouro ética” que foi rompida por uma qualquer malevolência. E que essa(s) qualquer(quaisquer) malevolência(s) é(são) agora convocada(s) segundo o poder que os descendentes dos seus agentes aparentam ter hoje (“aparentam” a negrito, bold em português actual). 

A abrangência de uma “dimensão ética de reconhecer o outro” (ou a “alteridade” para falar mais fino) é uma coisa muito recente (moderna, contemporânea, escolham). A história e a História estão condensadas nesta magnífica prancha do Pratt. E quem não percebe isso está na idade do Spirou, é um verdadeiro Marsupilami.

Sociais-fascistas

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No rossio português são patéticas as reacções à manifestação patriótica de ontem em Barcelona. O que é engraçado é que o independentismo catalão nem tem um ideário de “esquerda” nem é encabeçado por uma “esquerda” visceral. É um compósito nacionalista mas encantou a esquerda lusa, algo trôpega, apenas capaz de ver no real a caderneta de cromos que ambicionou na tenra infância. É uma transferência para uma realidade imaginada.

Algumas ditos são absolutamente patetas, outros chegam-se à abjecção. Alguns “denunciam” a centena de autocarros com não catalães que se dirigiram para Barcelona – coisa a que nós estamos habituados, com as camionetas alugadas por câmaras, e não só, para alimentarem de munícipes próprios as manifestações da “cor certa” em concelho alheio; outros vociferam contra os números exagerados de manifestantes apontados pela organização – como se isso, não aconteça também aqui, e sempre, em qualquer “Que se lixe a troika” ou “1º de Maio”; outros, e muitos – até escritores, que asco – vociferam contra a obra de Vargas Llosa, apenas porque ele discursou, tal e qual o “nunca li e não gosto” dedicado a Saramago por trogloditas lusos.

O FB português de hoje é um desfile tétrico, de inanidades. (Os tempos mudam, na era bloguista a gente “linkava” o que pontapeava, forma de avisar da canelada e de mostrar a quem se pontapeava, agora fica assim, no ar, um encolher de ombros). Mas a este propósito, desta reacção alargada em Portugal aos acontecimentos catalães, deixo aqui um desabafo que meti há dias no meu mural FB. Porque ainda mais actual, depois deste bramir colectivo de “shrekismo”:

A história ao repetir-se é uma farsa, disse em XIX um evolucionista alemão. O inglês Farage, o holandês Wilders, a AfD alemã, o partido da liberdade (que nome!) austríaco aplaudem. Consta que o imperialismo russo saúda. Do Piemonte ainda não chegaram notícias (“espera-pouco” sussurra-me a amiga experiência). Outros, (ditos “neo”/”pós”) marxistas exultam, (de)capados de um tal de “internacionalismo” que lhes animou os egrégios avós. Diante disto, que são os que se arrepelam com a urgência, objectivos, metodologia e, acima de tudo, pertinência da cena? “Sociais-fascistas“, com toda certeza. Uma farsa. Mas que será tragédia, se for deixada em cena.

O independentismo luso

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No “Público” de hoje dois historiadores comunistas (PCP/BE) publicam, e um alargado escol intelectual (da CEUD e da Capela do Rato, à LCI, UDP, ex-MRPP, passando pelo BE de XXI e pelo PS pós/Guterres) subscreve, um texto muito ponderado (deve ter sido negociado, denota-o umas aspas conceptuais muito cirúrgicas, para poder ser abrangente no meio-espectro). Apela à negociação. E quem pode não concordar? E recorda-nos o direito à auto-determinação dos povos (por evidente lapso “povos” não vem com aspas) e o direito a todas as formas de luta contra a opressão, e explicita que o que está em causa é a democracia. E critica, com polida veemência, as acções do governo de Madrid. Concordo com tudo.

Num texto de jornal não cabe tudo. Mas ainda assim de tantos mestres gostaria de algo mais. Logo o conteúdo substantivo da “opressão”, essa que justifica qualquer forma de luta, e que é causa do processo actual catalão. Depois, e já que criticam Madrid, que se aludisse à oportunidade e metodologia do governo de Barcelona, nesta revolução republicana independentista. Num texto que se quer abrangente talvez não lhe pudessem chamar “aventureirismo” (termo em voga quando muitos dos subscritores se formaram). Mas uma breve alusão ao contexto, seja ao espanhol, seja ao europeu ou até mesmo àquilo da geo-estratégia.

Outra coisa é a tal cena dos valores e princípios, profusamente citados, qual missal: lembro Gorbatchev na Gulbenkian, quando o confontraram com a questão da autodeterminação ripostar que havia mil entidades na Federação Russa, que nem lhe falassem nisso. Anuíram. O Dalai Lama não foi à Assembleia, e o partido de Loff chamou-lhe “chefe de clique” ou coisa assim. Compreende-se. Desde Sócrates que a lusa língua está enrolada, com vigor, em torno da glande chinesa. Aplaude-se. Há por aí uma FLEC a bramir por Cabinda. Ninguém refere (e ainda bem). A esquerda portuguesa nada aprova os separatismos euro-ocidentais continentais, que lhes são pouco simpáticos ideologicamente (na pérfida Albion é outra coisa, pois nunca lhe perdoou o Ultimato, colonialista como sempre foi e é). Sócrates e Amado fizeram uma radical inflexão pró-marroquina na questão saariana (muito bem, que o moderado e mui vizinho reino de Marrocos é credor de toda a simpatia. Mesmo se reino, porque esta gente não gosta mesmo é dos Borbón, as outras realezas passam). Ninguém notou.

Porque longe ou perto, dentro do aceitável e mesmo do inaceitável, reinam as cumplicidades e os financiamentos. E a geo-estratégia. Agora aparenta que não, que são os “valores” que se impõem. Em alguns casos sim, em particular o valor “Barcelona me mata”. Mas noutros não, pois esta súbita adesão à autodeterminação vem mesmo da geo-estratégia, da vontade de destruição das instituições democráticas europeias, da sua fragmentação e colapso. E é por isso que são os comunistas os locutores sob a bandeira sagrada “um homem, um voto”, eles que sempre negam o voto. Acompanhados pelos tradicionais “companheiros de estrada”. Esses que sempre acabam na valeta comum da tal estrada. É a tal geo-estratégia de que se fala agora. Negoceiem-na.

As aspas. E as desaspas.

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Em 1994 trabalhei na África do Sul, aquando das primeiras eleições democráticas. Não chateio os visitantes do blog com as memórias de tão belo momento. Apenas refiro o quanto gostava (e se gostava) de Mandela, naquilo de ele apelar à “nação” “arco-íris”. Que se suplantasse as chagas do segregacionismo racial. Mas também que se obstasse ao “tribalismo”, aos perigos das divisões entre gentes com tantas diferenças como as existentes entre os “capetonians” (termo já de si tão ambivalente) e os do Cabo Oriental, ou de Venda ou Kwa-Zulu Natal ou o então Transvaal, depois Mpumalanga. O quase-infinito carisma de Mandela, a placidez pragmática de Mbeki, os recursos existentes, com toda a certeza, e alguma sorte alquímica, vieram dar continuidade à “nação”. Até hoje.

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Eleições autárquicas

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Isto das autárquicas vale o que vale, concluir a partir delas é errático mas quero perorar. 1. O PSD e o CDS governaram 4 anos em condições tétricas e, chegado o fim dessa legislatura, ganharam umas eleições e o PS teve um resultado muito fraco. 2 anos depois o PSD leva uma abada nas autárquicas. A causa não é 2011-2015, tem que ser o 2015-2017. 2. O PSD leva uma abada, a cabeça de Passos Coelho é pedida; o PCP leva uma arrochada do caraças, o granítico Jerónimo é polido pela imprensa. 3. Pedrógão Grande passa do PSD para o PS: terá a ver com os candidatos. Tem a ver com a especificidade autárquica. Mas, raisparta (para não dizer pior): que coisa horrível. 4. Botei (no meu blog, não aqui no Delito …) algumas vezes sobre a freguesia lisboeta Olivais, onde cresci e onde voltei a viver: cerca de metade dos eleitores votaram, até um pouco mais do que há 4 anos. A lista PS ganhara com 42% em 2013. Agora ganhou com 52%, mais votos, mais mandatos, a mesma presidente. Um tipo torce o nariz, lamenta que seja este o perfil e a política neste canto oriental da cidade. Resmunga com o estilo (ontem amigos meus levaram as octogenárias mães a votar. As mesas são as dos “velhinhos”, é por números de eleitor não tem que enganar. A presidente da junta por lá andava, beijando os bons dos “seniores”, “a senhora devia ter lido o nosso programa” ouviram-na em plena fila de voto. É este o modelo, indicia tudo o resto). Mas o que é certo é que os fregueses gostam. Não vale a pena discutir. É aceitar isto, para quê envenenar (mais) o quotidiano próprio.

E debater a evidência: o Porto do Sérgio Conceição é robusto. Bom ambiente no estádio de Alvalade, ontem. Os munícipes lisboetas souberam receber. É assim.

O Muro de Lisboa

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(escrito para o És a Nossa Fé)

Não há muito que eu tenha para dizer. Quando em casa com o Porto o nosso melhor jogador é o guarda-redes, isso mostra como foi. Também não tenho grande coisa para resmungar, os rapazes vindos lá de cima jogaram bem, na primeira parte impuseram-se, amarfanharam até. Na segunda parte nem tanto, que aquilo foi oscilando, podia ter “caído” para qualquer um dos lados. Mas, de facto, não se perdeu o jogo porque o Rui Patrício foi o Muro de Lisboa a que nos vem habituando.

Jogo sem “casos” nem porradas, protestos e desvairos. Mau para os comentadores da bola, de que poderão agora falar?, que o árbitro Xistra passou por ali como se não fosse nada com ele.

Algumas breves notas, para mais tarde, ao longo da época, confirmar: a) Jonathan Silva é um desamado no plantel. Mathieu, Coates, Battaglia, William, talvez mais, passam-lhe a bola em registo de biqueirada ou lá mais para a frente ou para trás dele. Os chutos saem directos pela lateral. O rapaz parece que falha, a gente incomoda-se. Uma cabala contra o jovem argentino? b) Gelson rodopia, imaginativo, deambula, passa, por vezes muito bem outras nem tanto, o que é normal. Mas há alguns jogos que não o vejo driblar/fintar/ladear um adversário, aquele célebre e tão necessário “ir para cima” do outro, e daí ir até à linha para passar/cruzar. Mero acaso ou está em vias de transformação, devido aos cuidados tácticos defensivos, mudando-se de grande extremo para mero bom jogador? c) não percebo nada de metodologia de treino mas se calhar treinar a marcação de cantos não seria desadequado. Não houve um que se aproveitasse; d) o banco do Sporting, afinal, é muito curto. Para tentar desfazer um 0-0 em casa Jesus fez uma substituição (a de Podence não conta). É óbvio que sente não ter opções.

A ver vamos nas próximas jornadas. Agora intervalo para selecções. O que será bom para quem está em “crise”. Não é o nosso caso.