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Aos meus exemplares de três números desta Revista Trimestral de Histórias & Ideias (publicados em 1978 e 1979, na editora Afrontamento) comprei-os em 1984, durante a licenciatura. Dois deles ainda têm a tarja dos preços, 130 escudos o número simples, 150 escudos o número duplo (nº 3/4), e a lápis o preço de venda real, 50$ cada. Demoro-me nestes detalhes para lembrar que já então a revista fora descontinuada, nunca soube se por dificuldades económicas se por outros afazeres dos seus directores, Artur J. Castro Neves e Armando Trigo de Abreu, e se destinava a saldos ou alfarrabistas. É óbvio que eu não tinha então, nem tenho hoje, um verdadeiro conhecimento do panorama intelectual e editorial dos anos da sua publicação, decorrida durante a minha puberdade. Mas logo que as comprei, nos meus 19 anos, fiquei com a ideia que aquilo era muito “à frente” do que seria corrente. A revista era excelente, uma verdadeira mina intelectual, discutindo as temáticas do desenvolvimento num registo alheio às ortodoxias vigorosas de então, tanto a marxista estrita como a matizada social-democrata, pois mesclando as contribuições. E muito actualizada face ao que “lá fora” surgia.

Estudante de antropologia, bem antes de ouvir falar de Polanyi nas aulas apanhei-lhe o célebre “A Nossa Obsoleta Mentalidade Mercantil“, este logo no número 1 – se calhar com carácter de manifesto implícito, para a complexificação da análise, e para reflectir sobre a “transponibilidade de modelos“, como avisava o director Armando Trigo de Abreu. E junto com o também célebre texto de Dudley Seers, “Os limites do caso especial”. Sim, esses textos eram antigos mas eram também, presumo, inéditos em Portugal. E juntavam-se-lhes artigos muito recentes de grandes nomes de então, como Sidney Mintz, George Dalton ou Castoriadis. No fundo, era a abordagem às questões do desenvolvimento global reflectindo a temática da antropologia económica (e do que viria a ser dita antropologia do desenvolvimento), sobre a qual o próprio director Armando Trigo de Abreu escrevia. Isto tudo numa revista que não pertencia ao nicho disciplinar era algo então raro e super-entusiasmante.

Em 1992 fui fazer o primeiro mestrado em Estudos Africanos do ISCTE, de assumido teor desenvolvimentista (cujo historial está aqui narrado e reflectido). Foi-me óptimo, desembrulhando-me da formação que tivera até aí, que sentia como demasiado academicista. Nesse curso eram dois os professores efectivamente cruciais, Mário Murteira, célebre professor do ISCTE – e que evoquei neste texto, aquando da sua morte, explicitando também a importância do olhar aprendido naquele curso; e Armando Trigo de Abreu. Quando soube que ele seria meu professor logo regressei à memória daquelas já então velhas revistas, antevendo a densidade do seu ensino.

Antevi mal, por defeito. Era ainda melhor. Super-informado, imensamente reflectido, fazendo nele viver aquela interdisciplinaridade, essa que em tantos de nós é apenas panfleto ou miragem. Era o tempo dos BRICS, caíra o “muro de Berlim” e generalizavam-se os “capitalistas patrióticos” na China, de facto era a explosão daquilo a que viemos chamar “globalização”. E era também o tempo da disseminação da ideia do “desenvolvimento humano” e “sustentável”, noções que se vieram a tornar jargão e a chamarem-se “conceitos”. Nesse início dos anos 90s era mais óbvia do que antes havia sido a complexidade e indeterminação dos processos de transformação social e as enormes dificuldades provocadas pelos nossos instrumentos analíticos. E muito mais ainda a percepção do quão espúrias eram as certezas projectistas. E, como tal, a necessidade de sermos como se oleiros, tentando moldar o que olhávamos e como o olhávamos. Era isto que Armando Trigo de Abreu nos passava. E mostrava-o de modo muito peculiar, tudo muito sublinhado pelo seu jeito. Pois era um cavalheiro, nas vestes, na pose, no tom, uma espécie de gentilíssimo “fora de moda” que nos cativava. Numa involuntária sedução que assim tão mais alertava para os rumos intelectuais que nos ia indicando.

A esse seu modo de ser Professor associava uma extrema, mas muito discreta, generosidade. Consciente de que só o trabalho de terreno culminaria uma verdadeira formação, intercedeu pessoalmente para que tivéssemos (eu e alguns colegas) acesso a pequenas bolsas de investigação que nos permitiram realizar os trabalhos de campo em países africanos. Era o início de uma linha de investigação institucional e isso justificaria o esforço da organização. Mas foi ele que se deu ao trabalho de  procurar as linhas de financiamento, sem nunca referir o assunto ou recolectar as tradicionais fidelidades académicas. Pois era por demais cavalheiro para isso. Recolheu assim ao longo da vida as lealdades. As efectivamente devidas a um Professor.

Morreu hoje o meu Professor. E fico aqui, assim pior aluno.

 

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Um pensamento sobre “Armando Trigo de Abreu

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