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Boaventura Sousa Santos escreve sobre a Venezuela. O texto é uma tal trapalhada que até confunde quem o queira criticar. Mas está lá toda uma mundividência, num autor celebrizado mundo fora, assente numa retórica que é pujante, assim divulgando um pensamento utópico, até onírico, que ficará na histórica intelectual portuguesa (que fique explícito que não lhe encontro méritos frutificadores, mas há muitos que nele se alimentam). Grosso modo, as massas estão alienadas: a) as venezuelanas, pois parecem não estar firmes em torno da sua “revolução bolivariana” apesar das suas condições de vida serem melhores – é o velho argumento que defendia o mundo comunista, sem tirar nem por; b) nós também, vítimas da imprensa mercenária e parcial (essa mesma que também, por ímpios interesses, até chega a criticar a frente popular portuguesa, aka geringonça). O motor fundamental do processo histórico são os EUA, incarnando o “inimigo externo” – independentemente da realidade da pressão norte-americana, isto é o perdurante “anti-americanismo”, velho reaccionarismo oitocentista.

Mas tudo isso é o normal, nada de novo pois está patente no discurso global de BSS (ser-lhe-á até o cerne). O que é interessante é a atrapalhação deste texto, a querer defender o desnorteado regime de Maduro, expressando, de facto, a sua repulsa pela democracia. Ou seja, a sua repulsa pela democracia formal (sublinhe-se o “formal”), velha terminologia antidemocrática que BSS utiliza em textos mesmo de XXI. Pois, de facto, que interessa que as massas votem contra a “revolução bolivariana”? Esta é “virtuosa”, apesar dos “erros”, das más formas de “selecção de candidatos”, do “presidente impreparado”, como o próprio autor afirma. E com tal tem que continuar, apesar dos pesares. Já agora, apesar da repressão sanguinolenta.

É isto um “obituário intelectual”, BSS senilizou? Nada disso, isto é um juvenil manifesto. BSS é um radical adversário da democracia, um crente (explicita-o aqui) nas virtudes dos regimes musculados, do abate dos opositores. BSS é um inimigo da democracia. Considera-nos até, aos defensores deste tipo de democracia “formal”, antropologicamente menores. Como mostrou há alguns anos, num texto sobre Portugal, afirmando que todos aqueles que “à direita” do BE/PCP desconhecem o sentido da “dignidade humana”, assim somos uma espécie de primitivos, inferiores sob o ponto de vista ético e intelectual. Nestas coisas chego sempre ao corolário, que todos evitam botar: seremos então, para o BSSismo, “civilizáveis” ou “acantonáveis”. Ou, caso isso falhe, “abatíveis”.

BSS é um inimigo. A sociedade democrática louva-o, premeia-o, financia-o (e muito bem). Malditos EUA, que nos fazem fazer isto

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