Os pirosos

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Talvez nada mostre tanto a abjecção intelectual da classe média portuguesa do que esta já tradição: a cada eleição autárquica surgem colecções partilhadas na internet do “ridículo” captado nas campanhas em contextos rurais ou periurbanos. Sim, o poder local tem muito que se lhe diga (mas não será isto), sim, o seguidismo, mimetismo até, ao estilo propagandístico “nacional” é pobre.

Mas este humorzito de merda, este chalacismo com a ruralidade ou, melhor dizendo, com a localidade, com os recursos, características e preocupações muito situados, é mesmo o espelho da patetice urbana, essa que se julga cosmopolita, a deste netos de migrantes, malteses, chapeleiros, pastores ou seminaristas armados em finórios, envergonhados ou meramente deslembrados das famílias de onde vêm. Portugal é Lisboa (e o Porto) e o resto é bom para ir à praia, para o turismo rural. E como não há taco para grandes coisas então fica-se em casa na internet a gozar com esse resto, a dizê-lo piroso.

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A revolução bolivariana

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Boaventura Sousa Santos escreve sobre a Venezuela. O texto é uma tal trapalhada que até confunde quem o queira criticar. Mas está lá toda uma mundividência, num autor celebrizado mundo fora, assente numa retórica que é pujante, assim divulgando um pensamento utópico, até onírico, que ficará na histórica intelectual portuguesa (que fique explícito que não lhe encontro méritos frutificadores, mas há muitos que nele se alimentam). Grosso modo, as massas estão alienadas: a) as venezuelanas, pois parecem não estar firmes em torno da sua “revolução bolivariana” apesar das suas condições de vida serem melhores – é o velho argumento que defendia o mundo comunista, sem tirar nem por; b) nós também, vítimas da imprensa mercenária e parcial (essa mesma que também, por ímpios interesses, até chega a criticar a frente popular portuguesa, aka geringonça). O motor fundamental do processo histórico são os EUA, incarnando o “inimigo externo” – independentemente da realidade da pressão norte-americana, isto é o perdurante “anti-americanismo”, velho reaccionarismo oitocentista.

Mas tudo isso é o normal, nada de novo pois está patente no discurso global de BSS (ser-lhe-á até o cerne). O que é interessante é a atrapalhação deste texto, a querer defender o desnorteado regime de Maduro, expressando, de facto, a sua repulsa pela democracia. Ou seja, a sua repulsa pela democracia formal (sublinhe-se o “formal”), velha terminologia antidemocrática que BSS utiliza em textos mesmo de XXI. Pois, de facto, que interessa que as massas votem contra a “revolução bolivariana”? Esta é “virtuosa”, apesar dos “erros”, das más formas de “selecção de candidatos”, do “presidente impreparado”, como o próprio autor afirma. E com tal tem que continuar, apesar dos pesares. Já agora, apesar da repressão sanguinolenta.

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O incêndio dos intelectuais

Telegraph and Texas Register

(Lista dos mortos americanos na batalha do Alamo, publicado no jornal Telegraph and Texas Register , 1836)

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(Lista diária de baixas, I Guerra Mundial, jornal americano de Portland)

Por razões outras fui às estantes, ao nicho “E”, naco “Eco”. Deste, entre outros, caiu o livrinho “Cinco Escritos Morais” (Difel, 1998). No primeiro desses escritos, “Pensar a Guerra“, escreveu ele: “Os intelectuais como categoria são uma coisa muito esfumada … Diferente é porém definir a “função intelectual”. Esta consiste em identificar criticamente o que se considera uma satisfatória aproximação ao seu conceito de verdade – e pode ser feita por qualquer pessoa, até por um marginal que reflicta sobre a sua própria condição e que de qualquer modo a exprima, enquanto pode ser traída por um escritor que reaja aos acontecimentos de modo passional, sem se impor a decantação da reflexão.

Por isso … o intelectual não deve tocar o pífaro à revolução. Não para escapar às responsabilidades de uma opção (que pode fazer como indivíduo), mas porque o momento da acção exige que se eliminem as cambiantes e as ambiguidades (e esta é a função insubstituível do decision maker em todas as instituições), enquanto a função intelectual consiste em escavar as ambiguidades e trazê-las à luz do dia. O primeiro dever do intelectual é criticar os seus próprios companheiros de viagem (“pensar” significa desempenhar o papel do Grilo Falante). Pode acontecer que o intelectual opte pelo silêncio por temer trair aqueles com que se identifica, pensando que, para lá dos seus erros contingentes, eles afinal de contas procuram o maior bem para todos. Trágica opção, de que as histórias estão cheias … por [se] pensar que não se podia trocar a lealdade pela verdade. Mas a lealdade é categoria moral e a verdade é categoria teorética. 

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O mais belo

Atravesso a ponte, a velha, a vermelha, entro em Lisboa, telefono-lhe para jantar, não atende, e assim eu vou sozinho para a Ferreira Durão, onde comecei em casal,  há mais de duas décadas. Agora deslastrei-me todo, torna-viagem demente crente nas virtudes da terra queimada. Sento-me na pequena esplanada como se que a sorver a felicidade que ali foi. Descomo e bebo. Ele telefona. (Vais escrever algo? perguntam-me na celebração de hoje). E vai lá ter. Desjanta comigo. “Borrego …” (e é o único que me chama, ainda, borrego, quem mais me dirá assim, tão assim?) “… o que é que te deu?” pergunta-me, finalmente, que nada disse das últimas vezes que estivemos juntos, na sageza de deixar acalmar o negrume que me invadira.  Resmungo o meu queixume, tão óbvio desatino, e ele “pareces uma gaja a falar“, diz-me. Rio-me, é o meu amigo mais bonito, mais belo, são para aí 40 anos disto de o sermos assim (Não, soluço, é-me próximo demais, respondo, cabeceando já), e tenho que lhe aceitar o juízo. Que é certeiro. Avançamos, paramos na loja de conveniência a comprar uísques, coisa que aqui já não se bebe, só comigo que venho do sul, e vamos para o nosso prédio de sempre, de meninos. Onde o meu pai António já morreu e a minha mãe Marília já não vive. Invadimos a velha casa, agora minha. Andares abaixo dorme, repousada, sua mãe. Nós bebemos com a sede dos adolescentes que já cinquentões ainda somos. (Não sei resumir tudo o que foi, gaguejo). Rimos na madrugada, lágrimas mesmo, da tanta alegria, por assim juntos, e ainda. Vasculha-me os vinis dos meus pais, “A Tebaldi!!, aprendi a ouvir ópera com a tua mãe …” mente-me descaradamente, e confrontamo-la com a Callas, altos berros, para espanto e horror dos octogenários sobreviventes da Bolama (haverão de o referir, semanas depois, os que ainda conseguem reter memórias). Como não?, se é ele o mais belo, o mais bonito, dos meus. Choramos com a Tebaldi, talvez do quanto já bebemos (Com quem mais chorarei árias?, teclo eu agora), decerto porque estamos aqui juntos. E eu porque ele é o mais bonito, o mais belo, dos meus. E ele, estou certo, porque eu sou o borrego dele, para ele (Vais escrever algo? perguntam-me na celebração de hoje) (Não, respondo, é-me próximo demais). Ele, já manhã feita, navega elevador abaixo e eu cambaleio corredor afora até ao borco. Feliz, só agora e só assim, pois ele é mais bonito, o mais belo dos meus (Não sei resumir tudo o que foi, gaguejo). (E choro-me. Imenso, pareces uma gaja, diria ele, naquela sua infinita doçura).

Interdisciplinaridade

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António Cabrita escreve sobre o congresso lisboeta ocorrido na passada semana, dedicado a João Paulo Borges Coelho, escritor moçambicano. Com a sua costela de jornalista nota ele: “É uma vergonha haver um escritor do calibre de Borges Coelho (muito resolutamente um dos melhores no espaço da língua portuguesa) que é contemplado com um congresso internacional – com gente que vinha de Moçambique, Brasil e Estados Unidos [e também, pelo menos, da Alemanha, Angola, Espanha, Itália, Polónia, acrescento eu, jpt] –, e não haver espaço nos jornais para uma notícia, não se ter deslocado um único jornalista para cobrir e divulgar o acontecimento.”.

Eu, que não sou jornalista, noto isso mas noto mais. Borges Coelho é um excelente escritor mas é também um historiador emérito e um vulto fundamental na investigação sobre segurança marítima e as questões políticas do Índico actual. É, na velha acepção do termo, um grande intelectual. É um tétrico sinal de moribundismo local, nacional, muito pior do que mera “vergonha”, que não houvesse alguém presente, pois interessado, vindo das áreas da antropologia, da sociologia, da história (da história de África e não só), das relações internacionais, e etc “e tal”, nem mesmo desses híbridos “estudos africanos” (já para não falar do chamado Camões – Instituto de Cooperação, que desses pouco se pode esperar). E é certo que depois todas essas corporações enchem textos a que chamam papers com referências a algo que dizem “interdisciplinaridade”. Mas para irem ali ao Campo Grande, interdisciplinarem, já lhes falta o arreganho … Um tipo nota isso e há sempre um qualquer boçal, funcionário público da academia, que vem dizer que são afirmações de “ressabiado”, “invejoso” ou “ressentido” (o mais abjecto e básico dos psicologismos, pensamento de cloaca que estes graduados não têm vergonha de publicar, explicitando a indigência própria). Eu notei e referi esta absurda ausência e “explicaram-me” que “ah, sabes, esta altura é de férias, é natural que não apareçam“. Mas de facto as férias são 22 dias úteis, a maioria goza-as em Agosto. Quem está de férias são os alunos, as avaliações terão (na sua maioria) terminado. Deveria ser o melhor momento para fazer encontros, seminários, etc. Mas não é.