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(Este postal refere o artigo do The Guardian “Teresa May was to scared to meet the Greenfeld survivors“).

X é um jornalista que foi muito animador do bloguismo (e logo no tempo em que a sua corporação ainda bramava contra a nova era da palavra pública) e, depois, de outras formas de expressão na internet. Nisso foi, durante anos, um tipo simpaticíssimo comigo, acolhendo e ajudando. Estou muito grato. Fui agora ver o seu mural de FB e descubro que já não estamos ligados (se calhar, surpreendo-me, terei sido eu a cortar, em dia de mau-humor. Se calhar foi ele, por desinteresse). E é por isso que não o nomeio, pois este postal não é ad hominem, não é mesmo ad hominem. Fui lê-lo porque o vejo (é a minha interpretação) como exemplo da palavra internética atreita ao PS, mas sem a pompa do académico-político ou a verve dos assessores, e tive a curiosidade de lhe ver a linha de recepção do acontecido em Pedrógão Grande e arredores. Talvez porque jornalista, concedo, centra-se na crítica (visceral) ao trabalho da imprensa. Mas imediatamente antes do incêndio reproduzira um postal de um prestigiado vulto da academia portuguesa, partilhando o artigo cuja ligação encima este texto, ambos realçando uma mesma parcela do texto. Vou ver a origem da sua partilha, o mural da intelectual portuguesa, e comparo, em ambos os casos, com a forma como analisam o que aqui aconteceu. É a minha, amadora e atomística, forma de procurar o ambiente geral à “esquerda”.

Vejamos: no dia 14 a torre Greenfell arde em Londres, uma tragédia horrível, potenciada pela incúria das instituições estatais e a ganância dos empresários construtores. No dia 16, dois dias depois, o Guardian (o “meu” jornal britânico, como o Mail & Guardian é o meu sul-africano) publica este artigo. Duríssima análise, imputando responsabilidades por aquela centena de mortos aos governos conservadores. Cito o que os dois compatriotas entenderam realçar “That tower is austerity in ruins. Symbolism is everything in politics and nothing better signifies the May-Cameron-Osborne era that stripped bare the state and its social and physical protection of citizens. The horror of poor people burned alive within feet of the country’s grandest mansions, many of them empty, moth-balled investments, perfectly captures the politics of the last seven years.” O “meu” Guardian não deu tréguas, o seu luto não é o silêncio. É o escrutínio, no momento, com os dados disponíveis. A exigência, ao poder político e à administração pública. Uma análise dos processos sociais e políticos que conduzem às catástrofes. E isso é, por ambos, realçado, partilhado, assim explicitamente louvado.

Mas, no mesmo fim-de-semana, logo de seguida às suas partilhas, acontece a desgraça em Portugal. O que leio naquele mural? O lamento pela fúria dos elementos; o elogio do recolhimento, a correlação entre respeito pelas vítimas e contenção, a qual é apresentada explicitamente como exigência do silêncio; a partilha do texto de F. Câncio no DN que logo se apressou a reduzir o acontecido a uma inevitabilidade climática; uma crónica própria dita na imprensa radiofónica 2 dias depois do acontecido consagrando a tese de que as causas da catástrofe foram apenas naturais e aludindo ao aquecimento global. A crítica à imprensa – com o espantoso momento em que vitupera a falta de deontologia dos profissionais porque continuaram a filmar mortos apesar das “ordens da GNR” que os queriam proibir disso (é preciso repetir? uma crítica, vinda da intelectualidade de esquerda, aos jornalistas porque não acatam ordens da polícia para parar de filmar uma catástrofe!) (é preciso que eu repita outra vez?). E, exactamente dois dias depois das mortes, a elogiosa partilha de quem escreve (no DN, de novo) “é o momento de ajudar, não de criticar“. Culminando, insisto, 2 dias depois das mortes (exactamente os 2 dias que dista o artigo do Guardian do incêndio londrino, friso), com a recusa do “aproveitamento político” da situação, considerando-o “nojento“. Ou seja, dizendo nojenta a análise política do acontecido. Quanto ao meu (ex)blogoamigo-FB continuou, por seu turno, batendo forte e feio na Judite de Sousa e similares. Ao resto dizendo nada.

O tão louvado espírito do Guardian? Deve ser só para acima do canal da Mancha. Ou, vá lá, da velha Vilar Formoso. E é este o ambiente geral, abaixo de Vilar Formoso. Os laicadores, no FB (alguns, lamento dizê-lo, meus conhecidos) e fora dele, ululam e laicam. E vão impantes, eles e os laicados.

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