Publico_Porto-20170619

(ao correr das teclas):

1. Grande fotografia na capa do Público (de Paulo Pimenta): o horror, cru, sem ser preciso violentar sensibilidades e intimidades. E a mostrar também que, mesmo nesta era de superavit de imagens, nada substitui a imagem que é fotografia, a profissão do fotorepórter.

2. Uma coisa desta magnitude foi uma catástrofe. Há imensos fogos todos os anos, mas nunca como este, com esta desgraça. Uma conjugação de factores climáticos única, maldita, a provocar algo extraordinário. Assacar as culpas ao governo é um pensamento pobre, qual uma acusação de feitiçaria. Nisso de encontrar causas humanas, dolosas, para todos os fenómenos malévolos. De aplacar deuses e espíritos (e as nossas consciências) com um sacrifício, imolar um bode expiatório feito gente. E há já muita gente nisso … Houve erros? (sobreviventes dizem que foram enviados pela GNR para a estrada assassina), descoordenação, falta de meios ou de informação, alguma incapacidade face ao descalabro? Talvez sim, talvez não. Mas não foi isso que causou algo tão assim.

3. Uma desgraça destas exige pensar. Pensar “fora da placa” – ou seja, pensar fora do “consenso”, esse também maldito mito que entorpece. Ontem dois bons textos de Henrique Pereira dos Santos, digo eu que sou totalmente leigo na matéria: no Corta-Fitas; e no Público.

4. Causas sociais? Ângelo Ferreira (que foi bloguista) escreve hoje o seu espanto/desagrado, relatando que ontem numa freguesia de Aveiro, apesar da desgraça e do luto nacional decretado, passaram a tarde a lançar foguetes dadas as festas tradicionais (algum santo, decerto). Melhor imagem para o desprezo insensível do litoral urbano para com o mundo do interior, ainda ruralizado? Capeado pelo interesse muito actual, até folclórico, pelas feirinhas nos xópingues do queijo curado, do fumeiro, e do turismo rural de alguma burguesia. A queimada que Portugal é desde há algumas décadas vem muito disso, do olhar para o Atlântico virando costas para o interior: com raiva, aqueles que vieram pobres, “filhos” dos das courelas ou de malteses ou ratinhos. Com o desprezo de sempre, dos “filhos” de lavradores ou morgados, e dos arrivistas.

5. Políticos? A população está chocada, e teme que coisas destas se repitam. E chora a terra queimada, sempre. Tem que ser sossegada e esclarecida. Ou seja, sem demagogia. Os políticos têm que esclarecer e ser escrutinados. O Presidente Rebelo de Sousa disse em 2016 que iria privilegiar o acompanhamento desta questão.  Não lhe compete legislar ou executar. Mas pode induzir, sensibilizar. E, politicamente, pressionar. Falou mal agora, quando no meio dos acontecimentos explicitou a desnecessidade de qualquer avaliação dos procedimentos havidos? Falou pessimamente. Mas acima de tudo, para que se possa escrutiná-lo, tem que nos dizer que acções tomou neste último ano, junto do governo, da assembleia, da administração pública, da sociedade civil, para cumprir a promessa que fez aquando dos incêndios do ano passado. Mesmo que tenha que violar o tal sigilo do Conselho de Estado. Mesmo que isso cutuque outras instituições e pessoas. Ele é o Presidente, tem que ser ouvido e escrutinado, para se salvaguardar. Não é preciso muito, duas páginas A4 chegam, explicitando acções e propostas feitas ou ouvidas, seus interlocutores, resultados esperados e havidos. Tem assessores para fazer isso, rapidamente (durante o luto, mesmo). Não se trata de diplomacia externa, de defesa nacional ou mesmo de política económico-financeira, questões em que o sigilo total ou relativo se impõe. É a administração do país, a política agrícola e silvícola, o ordenamento territorial. Fale. Fale-se.

6. O PM Costa foi ministro da administração, sabe da matéria, e quando chegou a PM prometeu combater (eliminar, quase) os fogos. Já circulam por aí as medidas tomadas dizendo-as responsáveis deste colapso, exactamente replicando o que Costa e o PS (e o BE) fizeram no governo anterior, ao qual diziam directamente responsável pelos fogos. O PM tem que ser escrutinado, não culpado. E neste caso não é no parlamento, é diante de todos para nosso sossego. Deveria explicitar concisamente (mesmo que o tenha vindo a fazer ao longo do tempo, recorde-nos agora) quais as medidas tomadas, as legisladas e executadas, quais os seus objectivos e os seus resultados até agora, um ano e meio depois de ter tomado o poder. A ministra da tutela disse, também há ano e meio, da extrema evolução da segurança e da capacidade organizacional devido às medidas que tomou. Esclareça isso, nas tais duas páginas A4 para nós-povo, e em detalhe para um alargado leque de agentes e estudiosos especialistas. Discutam isso. Mas antes de discutir informe-nos. E diga (digam) também que medidas falharam, ou não se conseguiram estabelecer, ou estão a meio – pois há uma desumanidade no discurso político, de anunciar completudes. Isso não existe. A mesma coisa para o secretário de estado, cujo perfil foi muito humanizado, pois chorou, pois soube-se que já passou por trauma semelhante. Diga, curto, conciso, franco, o que já fez, o que não conseguiu fazer, o que pretende fazer. E que dúvidas tem. Têm.

A culpa não é deles. Isto é uma questão de décadas, estrutural. Social, para dizer melhor. Como são presidente e governo têm, na crise, de nos dizer, verdadeiramente, sem abraços, beijos ou auto-retratos, falando de “pessoas para pessoas” o que fizeram, o que pensam fazer.

7. Como velho bloguista tenho um mural de FB muito diversificado. Inúmeros ex-bloguistas, jornalistas, académicos, profissionais da palavra. Talvez por indução do algoritmo-FB, que tende a esconder aqueles com quem não interagimos, mas talvez não, nessa mole de gente interessante aquela fracção mais ligada afectiva e ideologicamente ao poder actual foi pouco expressiva neste fim-de-semana. Surpreendi-me, até porque costumam aparecer na minha lista de actualizações (feeds) analisando e opinando sobre várias matérias. Não tanto nesta. Surgem-me hoje, criticando Judite de Sousa, uma qualquer pergunta que fez à ministra, e uma reportagem populista ao que parece. Encontraram nela a sua catarse. E o bode expiatório alternativo. É paupérrimo, intelectualmente paupérrimo. E é, até, moralmente abjecto.

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