paulinho

(Paulo Gentil; fotografia de Sérgio Santimano)

(18 de Junho, foi há dois anos que morreu o Paulinho, a deixar-nos cá. Então escrevi este texto no ma-schamba. Como está de difícil acesso, só por busca, aqui o recoloco. Maneira de partilhar que dele tenho imensas saudades. Imensíssimas …)

Esta é uma das canções da minha vida. Em tempos recuados também, mas não desde há décadas, por ser um carinhoso cantar desta partilha companheira de um charro, da procurada leveza amigada, isso mesmo que um dia fomos cantar à Aula Magna lisboeta, quando o Sérgio Godinho fora preso no Brasil, ainda os tempos daquela ditadura, por razões de posse de umas gramas de erva. Mas já então, e agora ainda mais, mesmo mesmo nada disso pois muito mais, que a canção subia a hino, como o foi, por dizer isto ” É que hoje fiz um amigo / E coisa mais preciosa no mundo não há (…) / Guardei um amigo / Que é coisa que vale milhões“, e era e é mais do que o suficiente para a fazer este isso tão grande …

Agora as décadas passaram, chegou a idade e já não é o meu tempo de fazer amigos. Mas sim, como hoje, o de os perder, partidos para sempre, e eu a cantar embargado “É que hoje perdi um amigo / E coisa mais preciosa no mundo não há (…) / que é coisa que vale milhões“. Avançou o Paulinho, o meu querido Paulinho, tinha que ser. E assim, como já o disse, sentindo-o muito, a savana está a ficar desarborizada, sem sombras e sem refúgios. E um homem desabrigado, enquanto aqui vai ficando.

Conheci-o já depois daqueles tempos épicos, “os anos de chumbo” que narram em Moçambique, doirados para os homens que o são por mais duros e injustos que fossem, esses tempos e até aqueles homens. Talvez melhor dizendo, tempos doirando os homens, coisa complexa para quem não conhece o país e se apresta em juízos, que nada mais são do que posconceitos, assim falhos.

Apanhei-o, apanhámo-nos, depois, já naquela tão aparente modorra do Maputo da paz. As nossas mulheres mui amigas, as nossas filhas crescendo juntas (e como tanto as amamos!, pais velhotes …), um punhado de amigos em conjunto, este a desvanecer-se tão depresssa, e como dói isto do Kok e do Jorginho também já terem avançado, e mais para mim, não tanto para ele, o Luís, esse que me devastou, me mudou para tão pior, quando foi e eu não consegui estar. E o nosso Sporting, coisa sempre jocosa, mais o resto tudo. Pretextos, e ainda bem que assim foi, para a gente tantas vezes se sentar juntos, partilhando. O jarro de vinho, com alguma parcimónia, sempre o notei, mais um charro ou outro, da parte dele, eu mais naquelas apneias dos uísques e assins. E à nossa volta cada um ao seu ritmo.

E nisto eu a aprender Moçambique. Ele o mais moçambicano que apanhei, um profundo zambeziano do zumbo ao índico, do maputo ao rovuma, apaixonado pelo seu país. Pois um conhecedor, amante. Avançasse eu, ou outrem, para a distante província, para qualquer recôndito distrito, havia sempre alguém que ele conhecia, um contacto a fazer, a facilitar as dificeis condições, ainda para mais porque, e quantas vezes mo aconteceu, “és amigo do Paulo Gentil? então estás em casa, do que precisas?“, seja lá onde fosse, fosse lá quem fosse … Pois nele havia um conhecimento denso do país feito saber da história, aquela dos ditos “chuabos”, da escola de Chimoio, dos tempos da independência, da guerra civil, na qual andou mesmo mesmo como “camarada comissário político” (como lhe respondia eu ao “professor” nas nossas chamadas telefónicas), e do daquilo do depois, do mundo “ongs”, do desenvolvimento, um conhecimento que era o das pessoas que a fizeram, à tal história, e que a estão a fazer, algo que nós, antropólogos, chamamos etnográfico.

Um saber feito de memória prodigiosa mas acima de tudo de sabedoria, e não estou a ser redundante. De respeito e, acima de tudo, de um enorme interesse por quem o rodeava. Mais ainda de louvar pois em homem nada plácido, um gajo de irritações, mau-feitio, como o deve ser homem que o é, homem de feitio. Mas homem, e isso sabiam, sabiamo-lo, nós os outros. Por isso mesmo, pelo apreço e cuidado por todos os com quem ombreava, algo a que também se pode chamar só respeito ou mesmo amor, o digo, o sei, o mais moçambicano, o maior moçambicano, que cruzei. E assim, só por assim o ser, ainda que sarcástico, irónico, mesmo até malandro, sendo, e por todos sabido e vivido, homem de amigos, tantos amigos, eu apenas um deles, mas assim a sentir-me tão especial, decerto como todos os outros. Homem … como tão poucos.

Apanhei-o agora no fim, aqui na Lisboa dele tão longínqua. Chegado cansado, pois este mesmo fim, mas o mesmo trato, nada rasurado, o mesmo humor, o mesmo afã do mundo. E conto-o para que os camaradas de Maputo o saibam, os possam assim acompanhar, a alguns destes seus últimos passos. Fui ter com ele ao hospital, aos Capuchos, à primeira consulta, cheguei e aperto de mão pois nada de abraços (e nem o abracei, caralho …). O médico, um tipo chamado Brotas, muito porreiro, a dizer que entrássemos juntos na consulta, e a gente a negar-se, eu num “não é preciso, só estou a acompanhar” e à terceira insistência do médico, obviamente preocupado, o Paulo logo letal “Zé, o tipo deve julgar que a gente é um casal“, coisa dos tempos d’agora-aqui, e a gente a rir-se, sem maldade, apenas de nós próprios, e mais dele próprio, agora-assim, foda-se que estava a morrer. Que coragem!

Avançou-me até à Póvoa de Santo Adrião, onde a família tinha casa, arrabalde lisboeta que eu desconhecia. Logo ao melhor restaurante da zona, o “Floresta”, a fazer amizade com os empregados, eles seduzidos. A comer nada mas com todo o prazer. Eu a beber a minha angústia. Depois, no segundo dia que lá fui parei, sozinho, no quiosque (a barraca, como se diz na terra) da rua dele, a comprar tabaco, e a miúda “então, o seu amigo hoje não vem?“, e ele já era do bairro, gostado e precisado! E eu, que aqui vivo, e tantos outros, e ninguém nos liga …

Dias depois outra consulta, apenas para mais delongas para um homem já sem tempo. No fim perguntei-lhe “camarada comissário político e agora? onde queres ir?“, e ele a querer sair dali, daquela Póvoa de Santo Adrião, até à Lisboa ali depois dos montes. “Feira do Livro” disse-me. Avisei-o que era um subir e descer cansativo para ele e, raisparta, de que vale lá ir, nós sem dinheiro, para além de que aquilo para mim é só comprar livros para a estante, pois tantos já em casa sem serem lidos, e posso-lhos emprestadar, é só ele vir buscar. E ele a rir-se “gosto disso!, é isso mesmo, quero comprar livros para a estante“, assim a pensar o futuro, e eu a esmaecer diante de tanta força. Mas ainda era cedo, meio da manhã, a Feira ainda fechada. Fomos almoçar, “talvez ao rio, não?” propus, mas logo lhe dizendo “que nos interessa o Tejo a nós, vindos do Índico?” E assim fomos ao mercado de Alvalade, uma espécie do mercado do peixe lá de Maputo onde acabámos no restaurante local. Eu a presumir um peixinho grelhado, adequado julguei eu. Mas nada disso, “uma cataplana de gambas e peixe” escolheu e assim foi, ele a picar algo com o prazer da vida e eu a alambuzar-me, enquanto lhe prometia metade do frasco de piripiri que o Elísio me trouxe agora de Maputo …

Comemos e falámos. Do futuro. Um pouco disto de Nyusi mas muito mais do como estamos, que vamos fazer, nós-próprios. Ele preocupado comigo, com a minha família “Zé ….!!!” a obrigar-me a pensar, “que estás a fazer?“. E eu preocupado, “como estás de reforma?” “de dinheiro?“, como “vai ser o regresso?“, a esperança quase desesperada a fazer-me ainda mais imbecil. Ele a exigir pagar naquele dia, e assim foi. E a navegar esse futuro que aí vem. Ambos sem reformas, sem bens alguns, sem emprego, sem nada disso. Camaradas manos. “Estamos fodidos, camarada!!” disse-lhe. E ele, quase a morrer, a rir-se devagar, num concordante “estamos!“. Pois o Paulo, depois da adesão, dos 40 anos de militância, da guerra feita, e depois de tanto distrito calcorreado, de tanta ong trabalhada, daquilo do desenvolvimento, de tanto contacto, de tanta amizade, nada acumulou. Nada quis. Nada apropriou, nada aproveitou. A sua maneira de andar direito, erecto. De amar, solidário. Orgulhoso.

Pois todo se deu, assim fruindo. Todo conheceu, assim fruindo.

E eu, agora, hoje, não o vou comparar com os outros. Pois nem o merecem. Fico-me a chorá-lo. Homem a chorar a falta que ele me vai fazer.

Anúncios

2 pensamentos sobre “Camarada

Diga de sua justiça, sff

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s