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Há alguns anos o tipo representado por esta estátua plantou-se num estreito, diante de um exército inimigo imensamente superior. A páginas tantas virou-se para as parcas centenas dos seus soldados, já exaustos por dois dias de combate desigual, e gritou-lhes, gutural, qualquer coisa como “No Pasarán!”, no seu grego clássico. Os homens, que eram aqueles ele guardara junto de si exactamente para aquilo, eram um bando de rudes, vindos de vários sítios daquela península, até entre-inimigos entre si, decerto que desdentados, carregados de pústulas e furúnculos, alguns raquíticos, outros zarolhos, gagos, um ou outro até algo demente. Todos analfabetos, à excepção de um ou outro oficial, e todos crentes em estranhos deuses, adivinhas e feitiços e nem se teriam questionado se a terra era redonda. Não sabiam o que seria aquilo de “pátria”, estavam ali para lutar contra uns tipos que os queriam obrigar a pagar impostos extras e, quanto muito, a fazer uns casamentos entre gente nobre de ambos os exércitos. O seu comandante era um rei, de uma terra onde não florira qualquer aragem de “democracia”, “igualdade” ou “fraternidade”, nem tão pouco de filosofias benfazejas ou artes amenas. E todos terão urrado em uníssono “No Passarán!”, no grego rústico deles. E deram tudo por isso, fazendo-se massacrar.


As gerações anteriores liam esta história, alguns até aprendiam o grego de então – hoje não porque não dá emprego, pois não contribui para o desenvolvimento sustentável e a inovação tecnológica. A estes, os do estreito, ninguém chamava “alienados”, “loucos”, “irreligiosos”, “marginais”, “desvairados” ou vítimas de “lavagens cerebrais”. Deles se fizeram heróis, mito, quase fundacional, de uma área cultural, de uma sensibilidade, se se quiser. Gente algo ignorante que combateu até à morte, antevendo-a, para defender algo fluído, complexo, mas sentido.

Hoje há muito desdentado, pustulento, furunculoso, que não conhece a história. Mas há os dos “simpósios”, dos convívios e banquetes, pele esfoliada, sovacos feitos axilas. Que a conhecem (ou deveriam conhecer). Que estes me venham dizer que os guerreiros suicidas são “alienados”, “loucos” ou “vítimas de lavagem cerebral”? Os guerreiros suicidas que nos acometem são soldados inimigos. Crentes no que fazem como os homens daquele estreito e os seus tantos sucessores. São racionais, estratégicos, actuando sob o seu livre-arbítrio, este algo limitado como o é sempre, para todos nós. Alienado é aquele que apõe alienação ao outro. Louco é aquele que aponta a loucura alheia. Aquela gente é inimiga, voraz, racional, corajosa. Combate-se, naquilo do “perseguir e abater”. A historieta do lamento pela pobre vítima da “lavagem cerebral” – e das “condições sociais” – é a negação da racionalidade alheia (de facto é o “orientalismo” preconceituoso ecoado pela soi-disant “esquerda” europeia).

São eles ignaros porque acreditam num paraíso futuro (cheio de virgens, consta que o mito lhes promete) após o sacrifício? Não acorreram os meus compatriotas em magotes, há quinze dias, para saudar um estrangeiro que lhes veio dizer que uma criança (raquítica, pustulenta, furunculosa, desdentada, gaga, demente?) brasileira foi curada por duas crianças portuguesas que morreram há 100 anos? Não acredita esta gente que há um qualquer céu após isto tudo onde está, pelo menos, uma virgem?

“Brainwashing”? “Alienação”? Um judeu alemão disse uma vez que a história não se repete, que o que da primeira vez é uma tragédia depois é uma farsa. Se Chamberlain foi uma tragédia estes chamberlaines de trazer por casa (ou pelo bloco) são uns farsantes. E peroram.

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