Teixo

(Um teixo, um dos meus totens patrilineares)

Volta e meia surge alguém a gozar com os nomes de moçambicanos. No rossio da actualidade, o facebook, o modo disso é sempre o mesmo, símbolos jocosos enquadrando fotos dos BIs, que algum engraçadinho disponibilizou. É uma cena triste (para além da apropriação da documentação alheia). Pois as origens dos nomes são várias e o gozo só mostra a ignorância dos candidatos a cómicos: desde a atribuição autoritária e desrespeitosa nos tempos da administração colonial (o que não incide sobre as novas gerações, claro) até à tradução para português dos nomes nas línguas moçambicanas. Mas o motivo do riso muitas vezes é apenas a incapacidade de sair do hábito, rir-se do que parece diferente mas não é: acabo de ler alguém a gozar com um nome que agrega raiz, espera e mandioca. Mas diante de alguém chamado Esperança Trigo Fonte, por exemplo, ninguém sorri.


Depois há o que devia ser óbvio, as coisas do real servem para darmos nomes às pessoas. A mim, quando nasci, os meus pais, decerto que esperançosos, deram-me este nome, José Flávio. Ou seja, Acrescento Louro (depois saí-lhes isto, azar o deles). Com os nomes de família que tenho (Taveira, Pimentel, Teixeira), se fosse moçambicano “originário”, nascido em 1964, poderia ter sido registado, em apropriação literal, qualquer coisa como Deusdeu Este Louro Tseke Piripiri Teixo.

Muitos se ririam. Mas não se riem do meu nome. Apenas porque não o percebem. Nem, e isso é bem mais triste, percebem os seus próprios nomes.

Anúncios

Diga de sua justiça, sff

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s