capelo

Há exactamente 140 anos, em 5 de Maio de 1877, o capitão-tenente Hermenegildo Capelo, e o major Serpa Pinto partiram de Lisboa para Luanda, onde se lhes juntou o primeiro-tenente Roberto Ivens. Cumpria-lhes a Expedição Portuguesa ao Interior da África Austral, de objectivos algo fluídos mas com particular incidência na recolha científica de dados geográficos (cartográficos e hidrográficos) do interior continental, aquela gigantesca área que os interesses portugueses vieram a intitular (e reclamar) Mapa Cor-de-Rosa. Divergências sobre o conteúdo da missão implicaram a sua divisão. Serpa Pinto, em viagem decorrida entre 1877-79, avançou da actual Angola até Pretória (relatando o feito em “Como Eu Atravessei África”). Os dois marinheiros percorreram, entre 1877 e 1878, uma vasta zona de Angola mas falhando a tentativa de penetrar a leste, viagem da qual produziram (Ivens escrevia, ambos assinavam) “De Benguela às Terras de Iáca”. Mas redimir-se-iam desse relativo fracasso, pois em 1884, por incumbência do então ministro da Marinha e do Ultramar, o célebre escritor e jornalista Pinheiro Chagas, partiriam em nova expedição, cruzando o continente de Moçâmedes a Quelimane, deixando o relato em “De Angola à Contracosta”.

exploradores portugueses5

Entretanto cumpre-se amanhã, 4 de Maio de 2017, o centenário da morte do vice-almirante Hermenegildo Capelo (n. 1841).  Tomei conhecimento disso ao notar numa modesta fotocópia de cartaz afixada na montra de uma pequena loja na sua terra natal, Palmela. O programa comemorativo (o evento tem página no facebook) é simpático mas algo modesto: um passeio pela cidade, a imposição de uma placa comemorativa, uma sessão solene na igreja. E um concerto da banda da marinha (forma da armada se fazer representar?). Certo, talvez as instituições palmelenses (escola, câmara, estado, “sociedade civil”) venham abordando esta personagem ao longo dos anos, não conheço a vida da vila para o negar ou confirmar.

Ainda assim parece-me que algo mais poderia ser feito. Exposições, debates, mostras de filmes, etc. Com pessoal local, convidando vizinhos (p.ex. de Setúbal, que é uma cidade universitária, se é que é preciso a universidade para isto), até da urbe Grande Lisboa, aqui tão perto. Até porque, ao ter conhecimento desta efeméride, procurei na internet outras actividades evocativas, a decorrerem no país. Nada encontrei.

É certo que estas expedições científicas tinham um carácter eminentemente político, de reclamação de direitos históricos e de capacidades coloniais, e que foram matéria-prima para exaltação nacionalista e colonialista. Um passado que é hoje vivido no país um pouco em surdina, num óbvio desconforto, vindo da ausência da percepção do “tom correcto”. Nada aplacada pelos dominantes discursos seguindo a ideologia da lusofonia, que vêm o “encontro colonial” (uma expressão que só por si é um “must”) entre Portugal e as ex-colónias como se fosse uma simpática turma da universidade da vida. Muito menos pelos discursos minoritários, em particular em termos de vozes estatutariamente reconhecidas, que ainda louvam a gesta civilizadora portuguesa, como se Portugal tivesse sido (e ainda devesse ser) um mui competente mestre-escola, protector ainda que algo pedagogicamente inflexível, em regime de bom paterfamilias. E também os arautos da necessidade de um calvário nacional, da necessidade da expiação do pecado colonial, como se fosse este país, e esta gente que por cá coabita, emanação de um degenerado, bullyesco e até pedófilo, agente.

Em tal cenário nacional será de aproveitar as efemérides para contar (analisar, e ajudar os outros a analisar) a história nacional, calibrando o olhar necessário, sem silêncios, sem eulogias, sem autoflagelações. Uma consciencialização da memória histórica. Uma das formas é a leitura, usar os momentos para o apelo à leitura. Acima deixei os títulos dos livros dos exploradores. E deixo aqui a referência ao Exploradores Portugueses e Reis Africanos: Viagens ao Coração de África no Século XIX, um interessante e muito legível livro (já agora, cheio de extractos escritos pelos exploradores e com alguma iconografia de então, algo sempre agradável) feito pelos antropólogos Frederico Delgado Rosa e Filipe Verde (Esfera dos Livros, 2013). Certo, a obra foi pontapeada por Diogo Ramada Curto (o que não é caso único, conhecido que é o crivo acerado do prestigiado historiador), mas vale bem a sua leitura. Pelo prazer que traz, a qualquer interessado no assunto. E pelo hipotético contributo para uma reflexão sobre o passado.

E, em última análise, até porque não é totalmente excêntrica à tão simpática Palmela. Podendo até ser dita “coisa da terra”. Nisso sendo, mesmo, destinada a preencher as estantes locais. Num município desprovido de livrarias …

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2 pensamentos sobre “Centenário da morte de Hermenegildo Capelo

  1. Bem lembrada efeméride. Normalmente, este tipo de datas seriam excelentes oportunidades para, como dizes reflectir sobre o passado. Curioso, a 10 de Maio de 1904 (daqui a 6 dias) morreu o próprio Stanley, personagem que, não só por si e pelo seu percurso à la Lawrence da Arábia, deveria suscitar uma reflexão (uma excelente biografia em King Leopold’s Ghost, de Adam Hochschild). Para além de que também está na (bela) foto. Prendo-me sempre em admiração por estes momentos e feitos da história, sem juízos de valor nem preconceitos. O Stanley tinha acabado de chegar a Angola, culminando a que terá sido, provavelmente, a mais impressionante de todas as travessias, mais o que se lhe seguiu com a associação a Leopoldo. A primeira tentativa (portuguesa) de travessia, partindo de Quelimane, foi a de Lacerda e Almeida, de quem nem os ossos apareceram no desaire da viagem ao Muata Kazembe – e lá está o Congo desde o início.

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  2. Tenho há anos na estante o livro de Hochschild e ainda não o li, lembras-me bem, tenho que lá ir. Saquei a foto do livro que recomendo, onde o encontro dos 3 recém-chegados com o veterano explorador, acabado de chegar a Angola, muito depauperado. Dará para imaginar as expectativas ao encontrarem o mítico Stanley. O livro também fala do Lacerda – para um leitor como tu talvez não seja particularmente relevante, já deves ter abarcado os relatos das viagens dos exploradores portugueses em África. Mas para o comum dos interessados acho que é uma excelente porta de entrada. Estou como tu nestas leituras, um tipo deve fruir, nisso do “Prendo-me sempre em admiração por estes momentos e feitos da história, sem juízos de valor nem preconceitos.”

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