“A Bola”

Jornal A Bola - Armazém Leonino

O meu pai António nunca leu um jornal desportivo – lá em casa lia-se o “Século” de manhã e o “Diário de Lisboa” à tarde, e as coisas da bola eram-lhe indiferentes, até incomodativas. Nas férias, em São Martinho, eu ia-lhe buscar os jornais à papelaria na “rua dos cafés” e ele dava-me dinheiro para que eu também comprasse “A Bola”, que saía 3 vezes por semana. Ele achava piada (ou seja, bem) que eu lesse jornais, eu queria-os pelos nomes do ciclismo, do “Tour” e também da “Vuelta”, com os quais decorávamos as caricas para os “grandes prémios” nas pistas de praia, e também pelas notícias de Deus Nosso Senhor Vítor Damas, do Yazalde, do Nelson, do Marinho e Manaca, do Dinis e Bastos e Alhinho, e depois do Fraguito (sempre) de meias-caídas, também do Carlos Lopes, Aniceto Simões, Nelson Albuquerque, da belíssima Conceição Alves, Jorge Theriaga, Manuel Brito, Ramalhete, Rendeiro, Sobrinho, Xana e Livramento e tantos outros.

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O ensino do latim

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Ontem foi o dia argentino. Acabei-o a refolhear Borges. E logo a lembrar-me porque foi tão pouco querido de alguns: “Cada dia que passa o nosso país é mais provinciano. Mais provinciano e mais presunçoso, como se fechasse os olhos. Não me surpreenderia que o ensino do latim fosse abandonado pelo do guarani.” (no “O Livro de Areia”).

antonio sergio

Já nem me lembrava que António Sérgio havia sido efígiezado nas notas, recorda-me o google. Vem a imagem a propósito disto: “…porque em questão de fé toda a discussão é vácua. Quando um dos interlocutores de uma palestra qualquer declara que para ele certo ponto é de fé – creio eu que o coloca, por esse simples ditame, fora de qualquer discussão; e se o outro, depois, quer discutir ainda, toma uma atitude francamente absurda. Não discutirei, por consequência, a fé de ninguém …”.

(“Sobre o método mais próprio para converter o incréu”, Ensaios VI, Editorial Inquérito, 1946, p. 254)

Terrorismo

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Quando eu era miúdo havia os marxistas, nas suas diferenças: Zhivkov ordenou o assassinato do Papa; Brejnev gulaguizava os povos de leste; Mao havia massacrado o seu povo e Pol Pot fazia-o; os Baader-Meinhof aterrorizavam, tal como os etarras e as brigadas vermelhas; Neto era o que era. Mas também vinham Berlinguer, até talvez Marchais, Willy Brandt, Amílcar Cabral, Palme, Allende, Carrillo. Que pensavam coisas diferentes, entre si e daqueles outros. Que o diziam, propunham, clamavam. Até denunciavam. Ouviam-se (mesmo sem redes sociais e a infinita tv por satélite). A gente destrinçava. Percebia quem era o inimigo raivoso, furioso. E aquele que apenas tinha perspectivas diferentes. Mário Soares não era Arnaldo de Matos, o MES não era a LCI ou a UDP.

Agora, na sua pluralidade, a cosmologia política adversa é o islamismo. Tem imensas diferenças entre si. E integra algumas fracções vindas deste demónio da modernidade, o integrismo/fundamentalismo. Aquilo que agora é mesmo diferente é que não ouvimos os líderes das maiorias pacíficas que habitam aquela cosmologia a constantemente denunciarem, criticarem, perseguirem a matilha assassina. “Isto não é o islão”, balbuciam, por vezes, quase como se a pedido. A gente sabe que são direcções políticas (há quem lhes chame clero) mais descentralizadas do que os nossas. Mas o seu silêncio é ensurdecedor. E é também ele que alimenta as generalizações, o preconceito. Não é a “nossa” ôntica maldade ..

Acrescento Louro

Teixo

(Um teixo, um dos meus totens patrilineares)

Volta e meia surge alguém a gozar com os nomes de moçambicanos. No rossio da actualidade, o facebook, o modo disso é sempre o mesmo, símbolos jocosos enquadrando fotos dos BIs, que algum engraçadinho disponibilizou. É uma cena triste (para além da apropriação da documentação alheia). Pois as origens dos nomes são várias e o gozo só mostra a ignorância dos candidatos a cómicos: desde a atribuição autoritária e desrespeitosa nos tempos da administração colonial (o que não incide sobre as novas gerações, claro) até à tradução para português dos nomes nas línguas moçambicanas. Mas o motivo do riso muitas vezes é apenas a incapacidade de sair do hábito, rir-se do que parece diferente mas não é: acabo de ler alguém a gozar com um nome que agrega raiz, espera e mandioca. Mas diante de alguém chamado Esperança Trigo Fonte, por exemplo, ninguém sorri.

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Que sociedade para Portugal?

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Cada um interpreta o que lê conforme quer e consoante pode. Para hoje, dia em que o poder político se congrega com as autoridades eclesiásticas para celebrar o processo de Fátima e a canonização de duas crianças portuguesas, recolho e partilho, consciente que assim dele me aproprio,  um excerto de um texto do jesuíta Manuel Antunes, durante quase duas décadas director da revista Brotéria. Alguns poderão dizer que o manipulo. Se assim for que fique explícito que o faço com boa-fé.

Que espécie de sociedade desejamos? ( …) Uma sociedade em que estejam definitivamente para trás de nós o liberalismo atomista e o colectivismo totalitarista. Uma sociedade em que não se maximize o lucro nem se sacralize o poder. Uma sociedade em que o Estado, em vez de fim em si mesmo e de fim dos grupos que o compõem, se encontre, de verdade, ao serviço da comunidade das pessoas que o excedem em toda a linha. (…) Uma sociedade em que o espectro da mentira generalizada pela propaganda, da mentira que gera a mentira, por omissão ou comissão, se encontre afastado para o mundo das trevas exteriores. Uma sociedade em que os messianismos secularizados não se apresentem como substituto fácil da fé na transcendência e em que esta não possa cobrir com o seu manto protector um mundo de superstição ou de interesses bem mesquinhos” [Manuel Antunes, Repensar Portugal, Multinova, 2005 (edição original de 1979), pp. 30-32]

Fátima, segundo Vasco Pulido Valente

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Começo por lembrar que em 2010, centenário da instauração de república em Portugal, o papa Bento XVI (para além de tudo o mais um intelectual muitíssimo respeitável) visitou Portugal e Fátima durante o 13 de Maio. Com óbvio, mas então “esquecido”, significado político. “Esquecido” pois se a infalibilidade dos Papas já não é dogma as questões da dimensão estritamente política da acção deles continua a ser capeada pela retórica metafísica.

Sobre este fenómeno de Fátima deixo excerto de um texto de 1992 da autoria de Vasco Pulido Valente (“A República Velha“), publicado em livro em 1997 pela Gradiva. Um excerto que dedico àqueles que pensam (e o têm dito) que não se deve questionar a “fé” nem cutucar este fenómeno fatiminiano. Quadro de pensamento que não utilizam para tudo o mais, nem mesmo para as outras as actividades e suposições dos crentes em outras fés.

Perante a óbvia fraqueza do Partido Democrático e, ao mesmo tempo, a sua intolerável violência a Igreja tomava, sem vacilar, a cabeça da oposição política. Os republicanos moderados estavam desfeitos e, aparentemente resignados. O movimento monárquico oficial tinha recebido ordem de Londres para se abster enquanto a guerra durasse. A Igreja católica ocupou o vazio.

Cem anos antes, em 1822, a causa realista fora reanimada por um milagre. A Virgem aparecera a duas pastorinhas em Carnide, para lhes dizer que Portugal sobreviveria à impiedade maçónica. Sob o patrocínio de D. Carlota Joaquina, grandes peregrinações se fizeram aos locais sagrados, em que Deus garantira a dízima, os bens dos conventos e a perenidade das classes dominantes. Povo e nobreza associaram-se nessa devoção, destinada a exorcizar a “pestilenta cáfila dos pedreiros” e a promover o ódio às Cortes, onde eles “campeavam”. Quanto a insurreição armada começou uns meses depois, trazia já consigo uma sobrenatural legitimidade.

Em 1915 e 1916 os pastorinhos Lúcia … Jacinta e Francisco …, viram oito vezes, em vários sítios da freguesia de Fátima, um anjo, que declarou ser o anjo de Portugal. Ao princípio, o anjo não era muito nítido e não dizia nada. Pouco a pouco, porém, foi-se definindo e explicando. De acordo com a ortodoxia, estas visitas preparavam os acontecimentos de mais consequências que se seguiram. (…) Entre Maio e Outubro de 1917 a Virgem apareceu quatro vezes (…) Alegadamente, a Virgem comunicou que a Segunda Guerra Mundial seria “horrível”, uma ideia muito compreensível quando a primeira mostrava diariamente o seu horror, e preveniu também que a Rússia revolucionária se preparava para subverter o mundo, coisa que os jornais de Lisboa publicavam na primeira página, dia sim, dia não, desde Fevereiro. As profecias (…) resumiam as preocupações e a angústia do conservadorismo português da época. (…) reflectiam perfeitamente as opiniões e os sentimentos do padre médio, esmagado pelo triunfo terreno do mal, tremendo com a perspectiva de novas catástrofes e sonhando com a eventual conversão dos pecadores. Que Deus partilhasse as aflições dos inimigos da República era uma coisa insusceptível de espantar o clero português de 1917.” (Vasco Pulido Valente, A República Velha, Gradiva, 1997, pp. 115-117)

José Capela e a história de Moçambique

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José Soares Martins foi jornalista no Moçambique colonial e, depois, durante 19 anos conselheiro cultural de Portugal em Maputo. Foi como José Capela que assinou a sua vasta, seminal e até fundacional obra historiográfica dedicada a Moçambique (aqui elencada). Morreu em 2014, tendo a sua débil condição de saúde nos últimos meses de vida impedido a realização da cerimónia de atribuição do doutoramento honoris causa que a Universidade do Porto decidira outorgar-lhe.

Agora, daqui a três semanas, nessa mesma universidade decorrerá uma conferência internacional que se lhe dedica, ao conteúdo da sua obra e aos rumos analíticos que ela despertou. As sessões decorrerão no 29 e 30 de Maio e o seu programa é este. Seria bom, e bonito, que se pudessem congregar os interessados na história e sociedade moçambicana, na história colonial e portuguesa. Para convívio intelectual. E para a homenagem devida a alguém que foi verdadeiramente relevante. E um supremo cavalheiro, coisa nada despicienda.

A organização da conferência está centralizada no Centro de Estudos Africanos da Universidade do Porto, onde Capela se sediou após o seu regresso a Portugal em 1996. No seu sítio electrónico poder-se-ão encontrar mais informações sobre as actividades.

Portugal e a escravatura

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Rebelo de Sousa foi ao Senegal e meteu-se a falar sobre Portugal e a escravatura. Falou mal, em modo anti-intelectual (e tendo ele  criado para si a figura do “professor Marcelo” obrigou-se a dar outro lustro às suas afirmações). E falou mal em termos políticos, abrindo um tema nas relações políticas com os países africanos que lhe virá, decerto, a ser cobrado.

As reacções logo vieram. Na esquerda radical, sempre prisioneira do catolicismo, do culto do cilício purificador, sequela da filiação iconófila (e talvez também sensual) a São Sebastião, afirmou-se a necessidade da expiação nacional. Nada de novo, pois, como se sabe, se a maldade do capitalismo (e da sua “acumulação primitiva”) é total, a deste rincão e suas gentes é supra-total. À direita surgiu a habitual flatulência adversa às reflexões das “ciências sociais” (assim mesmo, com as aspas) e à análise histórica que fuja à eulogia da gesta pátria. Exemplo até antológico desse “boçalismo a céu aberto” é este texto de Maria João Marques no Observador (um bom jornal, que foge ao paradigma “voz do dono” dos ex-ministros de José Sócrates, que agora recobre a generalidade da imprensa dita de referência no país).

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Centenário da morte de Hermenegildo Capelo

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Há exactamente 140 anos, em 5 de Maio de 1877, o capitão-tenente Hermenegildo Capelo, e o major Serpa Pinto partiram de Lisboa para Luanda, onde se lhes juntou o primeiro-tenente Roberto Ivens. Cumpria-lhes a Expedição Portuguesa ao Interior da África Austral, de objectivos algo fluídos mas com particular incidência na recolha científica de dados geográficos (cartográficos e hidrográficos) do interior continental, aquela gigantesca área que os interesses portugueses vieram a intitular (e reclamar) Mapa Cor-de-Rosa. Divergências sobre o conteúdo da missão implicaram a sua divisão. Serpa Pinto, em viagem decorrida entre 1877-79, avançou da actual Angola até Pretória (relatando o feito em “Como Eu Atravessei África”). Os dois marinheiros percorreram, entre 1877 e 1878, uma vasta zona de Angola mas falhando a tentativa de penetrar a leste, viagem da qual produziram (Ivens escrevia, ambos assinavam) “De Benguela às Terras de Iáca”. Mas redimir-se-iam desse relativo fracasso, pois em 1884, por incumbência do então ministro da Marinha e do Ultramar, o célebre escritor e jornalista Pinheiro Chagas, partiriam em nova expedição, cruzando o continente de Moçâmedes a Quelimane, deixando o relato em “De Angola à Contracosta”.

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