A EMEL nos Olivais

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Esta foto de 1993 mostra o início da construção dos edifícios numa área descampada nos Olivais-Sul, então dita “centro cívico” e que veio a ser o actual centro comercial e habitações circundantes. Toda a praça foi edificada. A construção, 25 anos depois, ainda não terminou – o que mostra bem da desadequação da dimensão planeada. Na mesma rua abriu-se uma estação de metropolitano, na extensão de 1998. Na rua traseira reabilitou-se uma escola C+S e construiu-se uma primária. Entretanto, e estabelecendo-se uma zona de serviços, as lojas dos antigos prédios, que eram áreas comunitárias, passaram a ser alugadas a pequenas empresas – algo que seria previsível. Nos Olivais-Norte também se fez uma estação de metro. E ali se avizinharam as instalações do aeroporto, em crescendo.

Em nenhum momento Abecassis (1980-1990), Sampaio (1990-1995)/Soares (1995-2002), Lopes/Rodrigues (2002-2007), Costa (2007-2015)/Medina (2015-2017), induziram ou estabeleceram parques de estacionamento adequados ao previsível aumento de trânsito. Nem no bairro nem a montante (neste último caso em articulação com outros concelhos). Esta praça (as ruas cidade de Bolama e de Bissau) é um arquétipo do política camarária lisboeta, a cedência total ao “construtivismo” desbragado, sem qualquer sensibilidade urbanística.

A presidente da Junta de Freguesia prometeu há 4 anos que nunca deixaria entrar a EMEL na freguesia. Reiterou a promessa nesta última campanha. Que fazer? Agora, em assembleias e nas redes sociais, surgem fregueses apelando à instalação dos parquímetros, dizendo-se cansados da falta de estacionamento provocada pelo afluxo diário de viajantes e funcionários. Alguns dos fregueses considerarão que esta é a melhor solução, face à situação. Outros, presumo, falam porque têm esta missão partidária, a de criar a vaga de fundo para que o poder autárquico solicite a entrada do pagamento para estacionar. Como defesa dos fregueses …

Em 30 anos (!) não houve um gajo na Câmara que pensasse (e actuasse) no problema do estacionamento que toda esta infraestruturação provocaria. E agora, neste bairro tão envelhecido, tocará a pagar para ir visitar os velhinhos. Entre outras coisas. “Porque é melhor!”. E depois o facebuqueiro/bloguista é que é azedo …

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Fui ao futebol

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(postal para o És a Nossa Fé).

Ontem Sporting 1 – Belenenses 0. Estádio muito cheio, claro, um dérbi, contra o 4º grande (ó Salvador, atenta bem nisto). Fui com o Miguel, meu afilhado, pastel. Aliás, ele e o cunhado dele, lagarto, levaram-me. É o 1º de Dezembro, cantou-se o hino, foi bonito e esteve bem. A sportinguista sentada exactamente à minha frente, acompanhada do seu pequenote e de uma amiga, é uma jovem senhora lindíssima, casaco branco cintado que lhe fica mais-que-bem, loura acobreada intensa – sim, intimidades que a vizinhança de bancada permite comprovar – que refulge. Raisparta, tivesse eu menos 20 anos (faria nada, claro, mas fica bem dizer isto) … O Sporting é solidário e os nomes dos jogadores nas camisolas hoje estão em braille. O defesa do Beleneses quis ler o nome do Podence e foi penalti. Golo! Levanto-me e sento-me. Cabeceio na primeira parte – está visto, não devia ter bebido tantas imperiais com a entremeada debaixo do viaduto da segunda circular.  Ai que saudades, ai, ai, do nougat ao intervalo. E da queijadinha de Sintra. O meu querido pastel está há horas a chatear-me com o 1-3 do ano passado, que veio ver. E agora diz-me que os três golos (deles) foram “naquela baliza”, a nossa da segunda parte. Joga-se. O casaco branco tão bem cintado agita-se, o cabelo ainda mais refulge. Os jogadores do Belenenses são rapazes jeitosos, esforçados, vindos do Atlético e do Oriental (“e do Olivais e Moscavide”, completo), mas não jogam nada, já resmunga o referido pastel, ali ao meu lado. Cabeceio mais, acho que passo pelas brasas, estremunho-me com os assobios aos nossos, regresso ao sono, acho que um dos brunos (o carvalho?) falhou um golo, o brian também, que esse vi, mas mal, já por causa das ramelas. Saímos depressa, eles para um jantar, eu para o metro, para não ver o Porto-Benfica, antes do “até amanhã” o Miguel pede-me desculpa de me ter convidado para um jogo destes, eu respondo que o Sporting merecia ter empatado e que eles mereceram a derrota. Agora é ganhar ao Barça e ninguém nos segura até Kiev. Pois há quanto tempo não temos sorte? Daquela verdadeira sorte? Este Ano É Que É.

Peçamos as desculpas …

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Não estará na altura de reabilitarmos Miguel Vasconcelos? Considerarmos que foi assassinado por crer no / praticar o “europeísmo” de então, avant la lettre? Pedir, até, “desculpa” à figura e aos seus descendentes? “Não matarás; mas quem assassinar estará sujeito a juízo” (Mateus 5: 21) não era então, desde antes e até agora, o valor dominante na Cristandade (hoje em dia dita Ocidente)?

Zé Pedro, Homem do Leme

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(É um postal escrito para o És a Nossa Fé, blog sportinguista).

Ontem ao meio da tarde vou ao café de sempre, aqui no bairro. Dois amigos, daqueles daquele antes, logo me chamam à mesa. O Paulo Morisson, que no início dos 80s andou anos com os Xutos por todo o país, diz-me que têm uma má notícia, e logo ma dá, isto de que “o Zé Pedro morreu”. Surpreendo-me, que no último ano tenho estado encerrado em mim, lá num algures longe, e estive agora um mês e meio em Moçambique, voltei a semana passada, não soube sequer do espectáculo do Coliseu (ao qual teria ido, de certeza). Abato, ali na mesa do café. Não só como quando morrem os meus parcos ícones, o Lou Reed e talvez mais nenhum, a deixarem-me (ainda mais) sozinho. Mas porque agora tem sido uma revoada de mortos próximos, gente querida, conhecida, amigos, e há tão pouco ainda o João, meu irmão de pai e mãe diferentes, que não há maneira de parar de o chorar, (es)corram ou não os uísques. E também porque o Zé Pedro se ícone era próximo, aqui dos Olivais (ainda que do Norte), do Bairro Alto dos 1980s. Assim ele não divino mas herói, semi-divino, pois meio-homem, encontrável. E, mais do que tudo, terráqueo porque Zé Pedro é Xutos, aquele intangível afinal tangível que ecoou o “esse frio surdo / … que te envolve …”, que ouviu “berras às bestas / que te envolvem” e soube que “todas as tuas explosões / redundam em silêncio” avisando que “a vida é sempre a perder“, porque “nunca dei um passo que fosse o correcto / nunca fiz nada que batesse certo“. Estou agora, já velho, a cumprir um texto, um meneio serôdio, nele meti um capítulo – que me dizem para cortar, que desajustado, mas não posso, que perderei todo o sentido – de propósito para me narrar/justificar numa almadia atascada no Zambeze, entre crocodilos, a trautear “e mais que uma onda, mais que uma maré / tentaram prendê-lo impor-lhe uma fé / mas, vogando à vontade, rompendo a saudade / vai quem já nada teme, vai o homem do leme“, o mais que se foda! que já me assomou na vida, e muitos, tantos, já foram. Por tudo isso, abato, frágil, velho, ali na mesa do café, este mesmo de onde o Driol partiu há semanas, e exactamente do mesmo, e a isto já o disse. O Paulo, e é natural que o faça, comovido que está, arranca com umas memórias do início do on the road dos Xutos. O Chico recebe notas no telemóvel, a notícia já é pública. Eu ouço um pouco e depois saio, até casa. A lembrar que puto de liceu vi Xutos com os Minas e Armadilhas. E também, um pouco, pois já nem sei bem com que amiga estava, o 1º de Agosto no Rock Rendez-Vous, mas também é certo que me lembro muito pouco de tudo o que passei no RRV, por razões que são mais que óbvias, mas ainda tenho, um pouco ainda, a memória do sentir “É amanhã dia um de Agosto / E tudo em mim, é um fogo posto / Sacola às costas, cantante na mão / Enterro os pés no calor do chão / E há tanto sol pelo caminho / Que sendo um, não me sinto sózinho“. E tantos outros concertos, em Lisboa ou pelo país, até mesmo quando amigos me quiseram, mesmo sendo o puto que eu era, “road manager” – sem imaginarmos então que eu viria mesmo a ser, anos depois, um road manager em versão “mordomo” -, a apanhá-los num qualquer entroncamento ribatejano. E mais tarde, bem mais tarde, em Maputo, eu num abismo laboral, devido aos dementes lisboetas, mas feliz, feliz, pois no meio do desarranjo haviam enviado os Xutos – e no fim do espectáculo na Feira Popular, eu e o peculiar e vistoso Hernâni na primeira fila em X, como então se fazia, entro no camarim e o Kalu “estes gajos não gostam de rock?!“, que o silêncio e a apatia haviam sido gerais, e eu a mentir, a dizer que ali era assim, mas claro que tudo era incompreensível para aquele público e o ZP no sorriso “vi-te na primeira fila“, e eu claro que sim, pois seríamos apenas meia dúzia entre milhares a verdadeiramente ser “Xutos”, naquele rock n’roll. Conheceramo-nos, mesmo, antes, ali numa massada de peixe no Mercado do Peixe, a Isabel Ramos ofertara o peixe, eu as bebidas, o Vitorino cozinhara, a delegação musical, enorme, e os convidados comeram. E acabáramos numa festa em casa da Nice, a Princesa de Pemba, porventura a mulher mais bela que eu conheci, que o Andrea andava pelas Etiópias, feita de propósito para os visitantes. E eu, só ali, abancados a conversar, a perceber que o sorriso do Zé Pedro não era matreiro, era mesmo sorriso. E saltei, para há dois anos, no Sol da Caparica, eu e a minha Carolina, princesa da minha vida, aos 13 anos, juntos aos 30 000 em X e ela, desiludida (repito, aos 13!), “pai, eles não tocaram a Maria”, já ela, também, percebi, vinda do Maputo-Bruxelas, X.

Um postal destes num blog sportinguista, sobre clubes (e futebol)? Porque o Zé Pedro era do Benfica. Como o Kalu (seu companheiro, amigo, mano, camarada), diz, era do Porto, ele fez-se do Benfica, para o picar. Há muitos anos escrevi uma coisa sobre isso. Porque, de facto, os clubes são para isto, o clubismo é para isto. Só para isto, para nos picarmos fazendo-nos manos. E é por isso, até por isto, até por este só isto, mero futebol, que o Zé Pedro é o Homem do Leme. E mal vai quem não o percebe. E não o sente. Ao X.

A “ficarmos sós”

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Claro, como muitos (todos?) estou aqui a ouvir “Tudo dos Xutos” – desde as “Homem do Leme”, “Remar, Remar”, “1º de Agosto”, “Circo de Feras” que são as que tenho mais incrustadas, os Xutos a falarem / rockarem o que me ia no X. Mas agora mesmo chego a isto, uma cena que não conhecia. Nem imaginava. Uma delícia, aka, uma g’anda malha. E, raisparta, o “(mais)velho” a aguentar-se no meio daquilo, e de que maneira. O lixado é que “ficamos sós” … mesmo.